sábado, novembro 17, 2007

Os não-leitores

O artigo que Rui Tavares disponibilizou no PÚBLICO de terça-feira passada foi mal recebido pela colunista que com o historiador faz uma espécie de ping-pong de última página. Tavares tinha tido o cuidado de defender a equilibrada atitude de Zapatero, primeiro ministro espanhol, na cimeira-circo onde o famigerado presidente venezuelano foi dizer os seus disparates, em detrimento da atitude tempestuosa do rei espanhol (que o levou ao já célebre "Porqué no te callas?). Helena de Matos veio logo falar de parcialidade ideológica, de desculpabilização do ditador sul-americano, etc.

Eu por acaso até nem concordo muito com Rui Tavares. Nestas coisas de política, gosto de ver o pessoal a perder o verniz. E acho muito bem que se mande calar um imbecil (partir loiça, partir loiça!). No entanto, quem ler o seu artigo com imparcialidade, percebe que o colunista não estava a tentar tomar partido por Chávez, mas simplesmente a defender a atitude que lhe parecia mais consentânea com a boa prática da democracia.

No entanto, eu conheço bem essa histeria (passe o insulto) que certas palavras e ideias sempre provocam nos leitores apressados (e infantilmente convictos). Lembro-me de uma vez ter escrito um poema em que descrevia como um conjunto excessivo de inspirações me levara a uma espécie de asfixia silenciosa. A palavra inspiração fora usada por comodidade, e basicamente referia-se aos estímulos provocados pelo real. Pois desde então, os meus parcos leitores acham (e acham mesmo!) que eu acredito na ilusão romântica da inspiração (conceito desajeitado que não consegue esclarecer a sensualidade com que a mente pode funcionar). Aliás, se falo de místicos, sou católico. Se menciono utopias, sou comunista. E etc., etc.

Há sempre demasiadas comichões, demasiadas peles de galinha, demasiados cabelos que se eriçam na cabeça, e muito pouca honestidade de leitura.

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