quarta-feira, novembro 07, 2007

O INACTUAL 21

"Written on the wind" - Douglas Sirk (1956)


O intenso filme de Sirk é perseguido por uma sumptuosa estética de Outono. As suas imagens foram construídas de modo a apresentarem a mesma preciosidade doentia da folhagem das árvores quando sofrem o golpe lento da caducidade. No entanto, ao contrário do que acontece em "All that heaven allows", este não é o Outono do envelhecimento sereno. Este é o Outono da palavra americana fall, é o risco que desequilibra a superfície polida da beleza, a morte que se insinua no mundo dos ricos.

Na verdade, o autor filma a exuberância social como quem intensifica o seu poder de sedução. A realização sublima o fascínio natural que a riqueza propõe. Só o discurso vem nela assentar como uma ferida. Se para isso o cineasta teve de recorrer a uma ficção melodramática, tal deve-se à pretensão que Hollywood sempre teve de que os espectadores potenciais dos seus filmes não seriam capazes de sofisticação. De qualquer modo, o melodrama traz a carga quasi-expressionista necessária para que se estabeleça uma ruptura de profunda comoção entre o fascínio da imagem e a agressividade da intenção. A riqueza aparece assim associada à mais profunda irresponsabilidade.

Contudo, num filme invulgarmente ousado, onde os personagens falam com alguma frontalidade sobre as suas relações sexuais, uma das possibilidades de leitura que se abrem prende-se com o problema do incesto. Os três protagonistas (Mitch, Marylee e Hadley) vivem um afecto intenso (e tortuoso) desde a mais tenra idade. Dois deles são mesmo irmão e irmã, mas Mitch não se consegue distinguir da consanguinidade emocional que os coloca aos três em posições inflamadas de amor-ódio.

A relevância dada ao corpo é de certo modo ridicularizada pelo argumento (a excessiva importância que Hadley dá à sua parcial esterilidade é a causa do culminar trágico que precede o happy ending de encomenda). Toda a ficção poderia, aliás, ter sido escrita no vento: o flash-back inicia-se quando o ar agitado começa a desfolhar um calendário. O problema do incesto não se apoia, portanto, num critério físico (nesse sentido, a obra opõe-se ao "Édipo Rei" de Sófocles), mas num critério psíquico-temporal: o excesso de passado fraternal faz com que o trio seja incompatível do ponto de vista sentimental.

É preciso que o vento varra o passado, que o faça cair e nessa queda insinue o renovo que há-de vir. Surge então a personagem de Lauren Bacall, que vem construir o lugar da alma gémea. Mas desta vez sem problema: a irmandade que se forma foi constituída na idade adulta, o que faz com que a latência do incesto não se consiga impor.

Este estranhíssimo filme bíblico vem-nos dizer que os amantes são irmãos que se entre-escolhem livremente.

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