segunda-feira, novembro 12, 2007

O hábito não faz o leitor

No último número do JL, Gonçalo M. Tavares confessou que fica sempre intrigado quando uma pessoa lhe diz que já só anda a reler.

Sou solidário na sua crítica a todos aqueles que, um dia, decidiram que eram velhos e se retiraram por completo do presente. A curiosidade é a nossa mais preciosa máquina-do-tempo (assim como o mais verosímil tele-transporte). Abdicar disso é abdicar da sua própria liberdade.

Mas já não partilho da vontade de ler tudo o que interessa. Nunca tive ambições de me fazer enciclopédia, nem me sinto compelido a picar o ponto de todos os altares da literatura. Interessa-me ler tanto quanto me interessa reler.

Assim como não gostaria de conhecer todas as pessoas interessantes do planeta, gosto de entrar em relações de familiaridade revisitada com os livros que me vão tocando. O erudito talvez seja o verdadeiro viajante, que parte sem rumo e não precisa de se prender a nada. Mas eu sofro é de filias várias, e por isso cedo sempre perante a volúpia que existe nos regressos, na aceleração de relações, no mistério sem glamour da fidelidade.

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