sábado, novembro 17, 2007

O coleccionador 11

"A espada de Bijomaru" é um pequeno filme dos anos quarenta, realizado por Kenji Mizoguchi. É uma parábola interessante que faz corresponder a aprendizagem da vida por parte dos jovens (metaforizada no aperfeiçoamento da arte de fabricação de espadas) à progressiva eliminação da geração mais velha. Literalmente, a espada-símbolo força o enredo a dar um golpe fatal nos adultos que já viveram, para dar oportunidade aos adultos que querem começar a viver. Apesar do happy end, é um filme de alguma violência.

Nas cenas em que o protagonista e o seu companheiro de ofício tentam produzir a espada que servirá um propósito de vingança justa (dizem eles...), o constante matraquear dos instrumentos usados neste artesanato na superfície da folha da espada provoca inesperados brilhos, que perturbam a serenidade do preto-e-branco com o seu excesso de comoção. São incandescências que ao mesmo tempo expõem a violência que está apenas latente no enredo, e aceleram a exaltação lírica em torno de um objecto tão importante na cultura japonesa.

A um dado momento, surge o fantasma da vivíssima rapariga amada pelo personagem central (em torno da qual gira toda a questão da vingança de honra, mas que não está presente na oficina), e dá a ajuda prática decisiva para que os dois obreiros logrem fabricar a sua espada. De repente, a natureza espectral (espiritual) desses brilhos é frontalmente revelada.

Não sei se o brilho pertence, de facto, a este mundo - e teria o maior respeito por alguém que quisesse escrever a História do Cinema através dos seus Brilhos.

Sem comentários: