quarta-feira, novembro 07, 2007

Específica tragédia

No final do delicioso filme "Les parapluies de Cherbourg", os dois personagens principais estão perfeitamente pacificados com a substituição do absoluto sentimental que viveram por matrimónios sem chama. É Jacques Demy, o realizador, quem está tristíssimo com a situação, e a comoção do filme resulta precisamente do facto das personagens não terem consciência do drama que provocaram.

Quando leio no jornal que o piloto que lançou a bomba atómica em Hiroxima (num avião que ele baptizou com o nome da mãe...) afirma que nunca perdeu uma noite de sono por causa do seu acto de infinitas repercussões, pressinto que estou perante uma tragédia resultante da falta de consciência trágica do seu personagem. Por muito duro que isto soe, este homem deveria ter sido profundamente infeliz. Mesmo tendo julgado que a catástrofe nuclear foi feita para impedir mortes no seu país, mesmo tendo sido um mero receptor de ordens superiores, o piloto do "Enola Gay" não deveria ter encontrado nenhuma saída airosa para a sua continuação nesta terra.

Eis um muito bom assunto para um filme americano.

1 comentário:

Mariposa Roja disse...

Ora aí está um menino da mamã, e que simbólica homenagem prestou à sua progenitora.

Obrigada Ludgero por ter contado esse precioso detalhe.