sexta-feira, novembro 02, 2007

Dicionário 15

"Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante

não tem a utilidade de uma jóia:

é só um diamante (para um asceta)

só um dia amante (para um suicida).

Com uma jóia, sim, compra-se o mundo."

O poema de Luiza Neto Jorge de onde foi extraído este fragmento chama-se "Os frutos frios por fora". Mas nele a poeta declara que esses frutos "são por dentro aquecidos a electricidade".

Como as palavras, aliás. Dentro de si, o diamante só guarda a sua própria perfeição (que apenas pode interessar ao asceta) e o dia amante (aquele dia a partir do qual a felicidade se torna descendente, ou então aquele outro em que o suicida parte desta vida descontente).

Já a jóia, mais do que jóia é o escrínio onde se guarda a possibilidade de diamante, mas também a palavra italiana para alegria, ou a generosidade exemplar de alguns seres. A jóia é ainda o feminino de joio (que é o que as feministas separam do seu próprio trigo). E num sentido mais prosaico, a quota para poder ser sócio de uma associação qualquer (como a Vida S.A.).

Depois disto, alguém tem dúvidas quanto a cotações?

3 comentários:

aam disse...

Tentando materializar visualmente as incidências imagéticas da Luiza, creio que os "frutos verdes por fora" são os antigos candeeiros da rua da Misericórdia, em lisboa

aam disse...

"frutos frios por fora". "Verdes" foi um lapsus color

pedroludgero disse...

Obrigado pela sua visita.

De facto, não estava na posse da informação que me deu. Fico, contudo, com a sensação de que, se o poeta não pretendeu incluir a "chave" da materialização das suas imagens no corpo do poema, ficamos livres do espírito "detectivesco". :)

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