terça-feira, novembro 27, 2007

Crónica da chuva


Não tenho especial prazer em andar à chuva. Sinal, afinal, de que não sou tão tolo quanto precipitadamente me julgam.


Prefiro ficar de cima, despejando os cântaros (há quem lhe chame potes) de onde a chuva cai. Esta auto-sãopedrização não deriva de qualquer vaidade ética, mas do meu gosto por chaves que não sejam mestras (gosto partilhado por todos os tolos que acreditam em almas -desconfortavelmente- siamesas).

Os ingleses fazem chover gatos e cães, o que é simpático mas pouco prático: especialmente em Portugal, muitos andam por aí vadios a cheirar os cadáveres da sua própria condição (são gatos e cães de raça skeleton key).

Dos meus cântaros, eu faço chover outras coisas. Já disse num poema que eram peças de lego. Um pouco construtivista de mais, é certo. Mas não é que a construção final se reduz ao mero vapor do ciclo da criatividade infantil?

Fazer chover maná? Isso era no tempo das mercearias: a papinha vem agora toda feita em tétricos packs.

Chover é folhas de trevo(a) que completem quem ainda só tiver três. Chover parafusos sem fim para quem tenha a cabeça demasiado porca (quem lhe falte apenas um, não saia à rua nesse dia). Chover as jubas fluorescentes que vão desaparecendo aos dentes-de-leão. Chover minúsculos Baedekers para que as joaninhas conheçam outro destino que não a capital. Chover o que falta à catedralita do Gaudí, chover títulos do Hemingway sobre o Kilimanjaro ou chover vestidos de himeneu sobre o túmulo de Antígona. Chover as bolinhas dos sinais de percentagem das taxas de eu- juro.

Chover seja lá o que for, mas chover com garra, lata e abundância. Um dia virá a Asae e proibirá a chuva. Ou pelo menos a imaginação miudinha.


(Imagem de Animesh Ray)

1 comentário:

A Vilhena disse...

Ainda se lembram de quando, muito preocupada com o nosso bem estar e a nossa boa forma física, a Dinamarca propôs a pasteurização das massas queijeiras?
E houve quem embandeirasse em arco... santa ingenuidade e abençoada ignorância!!!