quarta-feira, novembro 07, 2007

Anotações cinéfilas

1. Parece evidente que o grande cinema contemporâneo é quase todo de índole documental. No meu ponto de vista, a diferença de qualidade entre as propostas do DocLisboa e do IndieLisboa é abismal (este ano, como só teria um dia para visitar o certame documental, resolvi nem lá pôr os pés para não ficar depois a curtir a curiosidade frustrada). A ficção ou é mercenária ou é pretensiosa, mas quase ninguém encontra o tom justo. Será que desaprendemos a imaginar de forma tão radical?


2. Sei que a minha parcial frustração com o cinema contemporâneo não deriva de um feitio reaccionário. Outros períodos houve em que a produção média da sétima indústria também não era exaltante. Basta lembrar a década de trinta do século passado, década de Josef von Sternberg, John Ford e Jean Renoir, é certo, mas momento evidente de decadência criativa perante o esplendor que o mudo havia atingido. O estar-imerso-no-seu-tempo não pode ser assumido sem uma postura crítica.

3. Quando o meu afecto pelo cinema sofre um pequeno ataque de melancolia, basta-me recordar a obra de Fritz Lang e torno-me de novo militante cinéfilo.

4. David Cronenberg é, precisamente, uma excepção fulgurante no presente. Independentemente do maior ou menor conseguimento de cada filme, a verdade é que o autor consegue construir imagens (cinema é imagens, não propriamente histórias) que colocam em causa toda a serenidade do espectador. Estou a falar na primeira pessoa: há momentos da filmografia de Cronenberg que me perturbam de uma forma que eu nem sequer ouso confessar. Momentos desestruturantes da personalidade. Será polémico afirmá-lo, mas parece-me que, dentro dos géneros que o canadiano decidiu adoptar, já não havia imagens de cinema com tanta força polémica desde James Whale e Tod Browning.

5. Tendo sido particularmente seduzido pelo seu documentário sobre Cesariny, fiquei curioso do progresso futuro de Miguel Gonçalves Mendes. O filme que, em conjunto com a coreógrafa Vera Mantero, realizou em torno da obra da Llansol, tem um conjunto de notabilíssimas imagens-fulgor. Diria apenas que, ao contrário do que parece, os livros da escritora de Herbais têm um fio condutor (fino, finíssimo, mas poderosamente condutor). Pelo contrário, senti-me um bocadinho perdido na obra audiovisual. Assim como talvez a montagem de Mantero (os dois autores fizeram duas versões independentes do mesmo material filmado) tivesse uma respiração e uma lógica mais consistentes do que as de Mendes. No entanto, isto pode ter sido o resultado do primeiro choque com um objecto definitivamente singular. Agora, que ele sabe filmar, disso não haja dúvidas.

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