quinta-feira, novembro 22, 2007

Adenda a "Vivre sa vie"

Como me pareceu que o post mencionado neste título entrava em ligeira contradição com o meu pensamento geral, senti necessidade de escrever esta pequena adenda. De qualquer modo, a contradição é o instrumento mais útil para afinarmos a nossa mundividência.

Continuo a achar que é o imaginário que fundamentalmente comanda as acções humanas. Mesmo no consumo (sobretudo no consumo) ou na dedicação laboral, o que essencialmente move as pessoas é a satisfação imaginária que podem retirar de um bem, de uma situação financeira ou de um estatuto social. Compro umas calças porque não seria louco ao ponto de andar nu, porque me quero integrar nas expectativas quanto ao meu género sexual, porque quero ficar giro, porque quero mostrar o dinheiro que ganho. Ninguém me venha dizer que compra calças para não apanhar frio...

Por isso mesmo, a contribuição da criação artística para o imaginário não pode ser leviana (ou eu assim o entendo). Se os produtos criativos engendrarem um imaginário pobre, simplista, calculista, sem respiração, estarão então a contribuir para o empobrecimento de cada concepção individual de vida e para a submissão progressiva de cada cidadão a uma escravatura intelectual não declarada.

Se o que se procura no convívio com a criatividade não é a profunda amplidão de que o espírito é capaz, presumo que seja melhor viajar, participar na festa futebolística ou ir à discoteca. Sempre são formas de encontro, surpresa e emoção. Um dia serei enterrado por pensar isto: se alguém não precisa de arte, mais vale desprezar as indústrias de entretenimento cultural.

Há tantas coisas interessantes para fazer...

Sem comentários: