quinta-feira, novembro 29, 2007

Low cost holiday



Uma saltada a Madrid, para ver Dürer, Velásquez, Goya, o século XIX do Prado...

Como nas canções

Quando eu atingir uma certa idade, espero que surja na vida o som de um contrabaixo: grave e tocado directamente com a mão.

terça-feira, novembro 27, 2007

Crónica da chuva


Não tenho especial prazer em andar à chuva. Sinal, afinal, de que não sou tão tolo quanto precipitadamente me julgam.


Prefiro ficar de cima, despejando os cântaros (há quem lhe chame potes) de onde a chuva cai. Esta auto-sãopedrização não deriva de qualquer vaidade ética, mas do meu gosto por chaves que não sejam mestras (gosto partilhado por todos os tolos que acreditam em almas -desconfortavelmente- siamesas).

Os ingleses fazem chover gatos e cães, o que é simpático mas pouco prático: especialmente em Portugal, muitos andam por aí vadios a cheirar os cadáveres da sua própria condição (são gatos e cães de raça skeleton key).

Dos meus cântaros, eu faço chover outras coisas. Já disse num poema que eram peças de lego. Um pouco construtivista de mais, é certo. Mas não é que a construção final se reduz ao mero vapor do ciclo da criatividade infantil?

Fazer chover maná? Isso era no tempo das mercearias: a papinha vem agora toda feita em tétricos packs.

Chover é folhas de trevo(a) que completem quem ainda só tiver três. Chover parafusos sem fim para quem tenha a cabeça demasiado porca (quem lhe falte apenas um, não saia à rua nesse dia). Chover as jubas fluorescentes que vão desaparecendo aos dentes-de-leão. Chover minúsculos Baedekers para que as joaninhas conheçam outro destino que não a capital. Chover o que falta à catedralita do Gaudí, chover títulos do Hemingway sobre o Kilimanjaro ou chover vestidos de himeneu sobre o túmulo de Antígona. Chover as bolinhas dos sinais de percentagem das taxas de eu- juro.

Chover seja lá o que for, mas chover com garra, lata e abundância. Um dia virá a Asae e proibirá a chuva. Ou pelo menos a imaginação miudinha.


(Imagem de Animesh Ray)

Tudo menos o meio-termo

A metáfora apenas tem o rigor do olho nu, não está para além ou para aquém da pele como as humanidades ou as ciências. Por isso, podemos sempre escolher a metáfora mais conforme ao nosso impudor perante as coisas muitas do mundo.

Custa, de facto, acreditar que um ser não tenha sido criado. Nós que, demasiado humanos, criámos e criamos tantas coisas que depois sabemos não poderem chegar a ser a não ser mediante prévia autoria e que, de qualquer modo, vivemos na fé dos nexos de causalidade sem os quais o cosmos regride até à mitologia, nós não podemos conceber um ser sem criador. No entanto, essa incapacidade que nos leva, silogismo após silogismo, até à figureta de Deus, pode ser mero defeito da nossa estrutura, defeito esse de que nem animal nem planta nem marciano nem anjo parecem padecer.

Podemos, isso sim, fundar a nossa crença com base na metáfora mais cara à nossa privada seita verbal. Teremos de continuar a entender o Demiurgo como uma espécie de Super-Consciente com capacidade de tudo inventar a partir da sua lúcida vontade? Nós, que já passámos pelos surrealistas, pela criatividade dos loucos e pela imaginação das crianças, nós não poderemos partir do pressuposto de que o Criador era-é um absoluto Inconsciente? O Inconsciente do Universo.

Assim, o Inconsciente como a única dimensão da imanência que nos é por definição transcendente, e que explica a dinâmica de prazer e crueldade com que todo o cosmos funciona (e que o Homem-só-o-Homem fez descambar em caridade e violência, como tão bem notou Calvino no seu "O visconde cortado ao meio"). Uma Pura-e-Inesgotável-Imaginação que não previu nem o amor nem a guerra, indiferente às Igrejas que sempre a tentam ler segundo metáforas de retórico medíocre, vero Poeta da matemática.

Deus no qual não é preciso crer, mas apenas viver.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Galeria 32



Fernando Echevarría

Orfeu não era apenas poeta

O mais fascinante na escrita de ensaio é a necessidade de constante retorno ao texto já escrito para se afinar o que ficou pobremente expresso, incompleto, ou sujeito a contradição. Se na ficção se volta atrás essencialmente por questões tecnicistas (não trocar o nome de um personagem, não fazer viver gente que já morreu, não perder o fio da narrativa, aprimorar o estilo), o regresso do ensaísta a si mesmo é sempre um compromisso de rigor, um caso de vida ou morte da honestidade intelectual.

Adenda a "Vivre sa vie"

Como me pareceu que o post mencionado neste título entrava em ligeira contradição com o meu pensamento geral, senti necessidade de escrever esta pequena adenda. De qualquer modo, a contradição é o instrumento mais útil para afinarmos a nossa mundividência.

Continuo a achar que é o imaginário que fundamentalmente comanda as acções humanas. Mesmo no consumo (sobretudo no consumo) ou na dedicação laboral, o que essencialmente move as pessoas é a satisfação imaginária que podem retirar de um bem, de uma situação financeira ou de um estatuto social. Compro umas calças porque não seria louco ao ponto de andar nu, porque me quero integrar nas expectativas quanto ao meu género sexual, porque quero ficar giro, porque quero mostrar o dinheiro que ganho. Ninguém me venha dizer que compra calças para não apanhar frio...

Por isso mesmo, a contribuição da criação artística para o imaginário não pode ser leviana (ou eu assim o entendo). Se os produtos criativos engendrarem um imaginário pobre, simplista, calculista, sem respiração, estarão então a contribuir para o empobrecimento de cada concepção individual de vida e para a submissão progressiva de cada cidadão a uma escravatura intelectual não declarada.

Se o que se procura no convívio com a criatividade não é a profunda amplidão de que o espírito é capaz, presumo que seja melhor viajar, participar na festa futebolística ou ir à discoteca. Sempre são formas de encontro, surpresa e emoção. Um dia serei enterrado por pensar isto: se alguém não precisa de arte, mais vale desprezar as indústrias de entretenimento cultural.

Há tantas coisas interessantes para fazer...

Loosening it

Após o visionamento do filme "Control" de Anton Corbijn, fiquei com a sensação de que o drama que dilacerava o vocalista dos Joy Division era mais específico do que à primeira vista pudesse parecer.

Ian Curtis talvez fosse um criador enraivecido porque o seu pensamento não era suficientemente livre. Ainda fazia distinções artificiais entre família (que ele definitivamente entendia como uma instituição burguesa respeitável) e amor, entre ética e liberdade, entre trabalho e prazer. Como tudo nele era sinceridade, as suas performances tinham de ser forçosamente excessivas: apenas dor, nenhuma volúpia.

De qualquer modo, ainda hoje se constroem muros entre aquelas dicotomias, se bem que quase ninguém desespere (porque quase não há seres sinceros consigo mesmos).

A família continua a ser vista como um espaço de obrigação e moralidade e não como um tempo de liberdade e imaginação. Só o afecto nos vai redimindo.

Pensamento libertador

"(...) numa moeda: ou vejo a cara ou a coroa. Não posso ver as duas faces simultaneamente. Mas podemos, com um espelho."

José Croca, Prémio Galileu de Física, em entrevista ao JL de 21 de Novembro.

sábado, novembro 17, 2007

Vivre sa vie

Eis uma falsa questão: saber se um determinado produto do imaginário pode ou não provocar mudanças na realidade.

Fala-se sempre de Marylin Manson e dos adolescentes que provocam chacinas em escolas, dos carrascos nazis a ouvirem Mozart, da "Grândola Vila Morena", da profunda canalhice de um poeta católico como Claudel, e de muitos outros prós e contras. Aliás, os poetas hodiernos adoram minimizar a relevância da sua criatividade.

Eu diria antes que há pessoas para quem a vida e a arte são os dois atributos da mesma forma de ser. Não conseguem ir criando a sua vida sem irem vivendo a sua arte. E se a vida é questão de vida ou morte, a arte é questão de realização (em sentido lato) ou infelicidade. E nesses seres, só nesses, a arte muda a vida e a vida muda a arte (sem que isso se traduza em causas-e-efeitos puerilmente discerníveis). Ou seja, aquilo que eu espero da vida é também aquilo que eu espero da arte (apesar da diferença de ontologias). É uma maneira de estar, entre muitas outras.

E não tem nada a ver com elitismo. Pois se todos precisamos de vida como o senhor de La Palice, nem todos precisamos de arte (embora essa necessidade se possa transmitir e adquirir tardiamente). E por isso nunca entenderei a obsessão com o sucesso nas actividades criadoras: o imaginário, quando desvirtuado, só provoca escravatura.

O coleccionador 11

"A espada de Bijomaru" é um pequeno filme dos anos quarenta, realizado por Kenji Mizoguchi. É uma parábola interessante que faz corresponder a aprendizagem da vida por parte dos jovens (metaforizada no aperfeiçoamento da arte de fabricação de espadas) à progressiva eliminação da geração mais velha. Literalmente, a espada-símbolo força o enredo a dar um golpe fatal nos adultos que já viveram, para dar oportunidade aos adultos que querem começar a viver. Apesar do happy end, é um filme de alguma violência.

Nas cenas em que o protagonista e o seu companheiro de ofício tentam produzir a espada que servirá um propósito de vingança justa (dizem eles...), o constante matraquear dos instrumentos usados neste artesanato na superfície da folha da espada provoca inesperados brilhos, que perturbam a serenidade do preto-e-branco com o seu excesso de comoção. São incandescências que ao mesmo tempo expõem a violência que está apenas latente no enredo, e aceleram a exaltação lírica em torno de um objecto tão importante na cultura japonesa.

A um dado momento, surge o fantasma da vivíssima rapariga amada pelo personagem central (em torno da qual gira toda a questão da vingança de honra, mas que não está presente na oficina), e dá a ajuda prática decisiva para que os dois obreiros logrem fabricar a sua espada. De repente, a natureza espectral (espiritual) desses brilhos é frontalmente revelada.

Não sei se o brilho pertence, de facto, a este mundo - e teria o maior respeito por alguém que quisesse escrever a História do Cinema através dos seus Brilhos.

Nasdaq



Segundo o último relatório de cotações, neste momento uma imagem vale 753, 22 palavras.

Os não-leitores

O artigo que Rui Tavares disponibilizou no PÚBLICO de terça-feira passada foi mal recebido pela colunista que com o historiador faz uma espécie de ping-pong de última página. Tavares tinha tido o cuidado de defender a equilibrada atitude de Zapatero, primeiro ministro espanhol, na cimeira-circo onde o famigerado presidente venezuelano foi dizer os seus disparates, em detrimento da atitude tempestuosa do rei espanhol (que o levou ao já célebre "Porqué no te callas?). Helena de Matos veio logo falar de parcialidade ideológica, de desculpabilização do ditador sul-americano, etc.

Eu por acaso até nem concordo muito com Rui Tavares. Nestas coisas de política, gosto de ver o pessoal a perder o verniz. E acho muito bem que se mande calar um imbecil (partir loiça, partir loiça!). No entanto, quem ler o seu artigo com imparcialidade, percebe que o colunista não estava a tentar tomar partido por Chávez, mas simplesmente a defender a atitude que lhe parecia mais consentânea com a boa prática da democracia.

No entanto, eu conheço bem essa histeria (passe o insulto) que certas palavras e ideias sempre provocam nos leitores apressados (e infantilmente convictos). Lembro-me de uma vez ter escrito um poema em que descrevia como um conjunto excessivo de inspirações me levara a uma espécie de asfixia silenciosa. A palavra inspiração fora usada por comodidade, e basicamente referia-se aos estímulos provocados pelo real. Pois desde então, os meus parcos leitores acham (e acham mesmo!) que eu acredito na ilusão romântica da inspiração (conceito desajeitado que não consegue esclarecer a sensualidade com que a mente pode funcionar). Aliás, se falo de místicos, sou católico. Se menciono utopias, sou comunista. E etc., etc.

Há sempre demasiadas comichões, demasiadas peles de galinha, demasiados cabelos que se eriçam na cabeça, e muito pouca honestidade de leitura.

Todos os acentos são ridículos

Dizem os especialistas que não podemos opinar sobre o que não sabemos. A minha opinião é: discordo.

O que os especialistas têm é de nos apresentar as razões científicas, técnicas, filosóficas, etc., que os levam a defender esta ou aquela ideia ou prática, e em seguida dar espaço aos não-especialistas para aceitarem ou não a proposta. Será que não podemos votar nas eleições legislativas porque não percebemos nada de economia, direito ou política internacional? Isso afigura-se absurdo.

Num programa recente da RTPN sobre a iminência (bem pouco iminente) da assinatura do Acordo Ortográfico pelos diversos países onde se fala português, chegou a levantar-se a hipótese de, em nome da maior facilidade de aprendizagem e aplicação da língua, podermos um dia chegar a suprimir os acentos ortográficos.

Só queria dar a minha achega. Estou neste momento a aprender russo. Ora, o enigmático povo de Dostoievsky tem a nefasta mania de não acentuar palavra nenhuma. Supõe-se que o falante saiba qual a sílaba tónica de cada palavra, apesar de ela não estar graficamente assinalada. Pior a emenda que o soneto: quando tento ler um texto em russo, nunca sei como pronunciar as palavras (a não ser que tenha decorado anteriormente a sua correcta sonoridade).

Aliás, durante as lições preparatórias, todas as palavras são acentuadas para... facilitar a aprendizagem aos corajosos aprendizes de tão distante e distinto idioma. O meu professor insinuou mesmo que talvez se estivesse a tentar inverter a prática da não acentuação no seu país natal.

Preferia, pois, que me dissessem que é preciso simplificar as regras de colocação dos acentos, e não que defendessem (ainda que um pouco oniricamente) a sua pura e simples abolição.

Tradutor: leal libertador

A tradução de um texto não deve ser um acto de virtuosismo, mas de sensualidade.

No momento presente, parece-me que não faz sentido que um tradutor se esmere a respeitar rigorosamente a métrica de um poema original na proposta de leitura que dele faz. A partir do momento em que o verso livre (em sentido lato) se tornou culturalmente mais relevante do que as antigas regras de versificação, já ninguém espera que um poema traduzido seja uma pirueta formal. Essa obsessão pode mesmo descambar num artificialismo obscuro que em nada faz justiça ao autor que se pretende comunicar.

No meu caso, essencialmente tento que o texto traduzido me dê tanto prazer a dizê-lo quanto o texto original me deu. Isto obriga-me a respeitar a cadência rítmica que o poeta me propôs, mas não a sua dieta rígida (por exemplo, na tradução de "O convite à viagem" intercalei sempre dois versos curtos com um ligeiramente mais longo, sem contudo me espartilhar na alternância entre redondilha menor e redondilha maior). Obriga-me essencialmente a fazer, de cada tradução, não um acto de historicismo mas sim a evidência da paixão que em primeiro lugar me moveu.

E para isso nem é preciso ser poeta: basta gostar honestamente de poesia.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Porqué no te callas?



(Pintura de E. Munch)

Tradução 3

Poema "O convite à viagem" de Charles Baudelaire, traduzido por mim:


......Minha irmã, minha filha,
......Imagina a delícia
De irmos viver para ali!
......Amar sem correr,
......Amar e morrer
No país igual a ti!
......Os sóis alagados
......Desses céus turvados
Em mim provocam o arroubo
......Dos teus misteriosos
......E pérfidos olhos,
Brilhando através do choro.

Lá, tudo é ordem e fausto,
Quietude, volúpia e encanto.

......Mobília reluzente,
......Polida desde sempre,
Decoraria o nosso quarto;
......As mais raras flores
......Misturando os odores
Com os perfumes do âmbar vago,
......Ostentosos tectos,
......Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
......Tudo falaria
......À alma em surdina
A sua doce língua natal.

Lá, tudo é ordem e fausto,
Quietude, volúpia e encanto.

......Vê nesses riachos
......Dormir esses barcos
Cujo humor é vagabundo;
......É p'ra cumprir o ensejo
......Do teu menor desejo
Que eles vêm do fim do mundo.
......- Os sóis declinando
......Revestem os campos,
Os canais, toda a cidade,
......Com jacinto e ouro.
......É o mundo em repouso
Numa quente claridade.

Lá, tudo é ordem e fausto,
Quietude, volúpia e encanto.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Partilha 24

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


Terceiro comboio: viagem entre o Cais do Sodré e a estação de Belém.

Sou presenteado com uma voz-off que é apenas íntima da distanciação. Da narrativa, fico a conhecer nada mais que a conjectura das fermatas, os momentos em que, para que se escancarem as portas da emoção, a pulsação do comboio irá abrandar até à imobilidade.

Mas não é este o assunto que aqui me prende. Antes da voz-off debitar o primeiro ensaio da sua futurologia cirúrgica, cardíaca, os viajantes são anestesiados por quatro notas musicais (três semicolcheias, talvez precedidas por uma pausa referente à mesma figura, e uma semínima conclusiva) tocadas num instrumento artificial e irritante. Reconheço os mesmos intervalos que introduzem (na mão esquerda) a quinta Sinfonia (para três vozes) composta por J. S. Bach para instrumento de tecla.

A partir daqui, poderia imaginar que a viagem de comboio passaria a corresponder a uma espécie de música tácita que todos os viajantes saberiam de cor na medida em que não passaria de um subtexto. Até poderia tentar adivinhar-lhe as vozes: o baixo assegurado pela continuidade do meio de transporte, suportando o jogo mais agudo entre o pensamento dos viajantes e a melodia transcendente da paisagem.

Mas ainda não é esta a minha paragem. Pois o que se me afigura encantador é o facto de, por um acaso feliz, a empresa transportadora ter complementado o seu discurso monótono com uma inesperada citação. Bach citado no início de uma viagem de comboio, não tanto epígrafe, mas verdadeiro mote de um diálogo que se estabelece ao longo das duas pautas dos carris.

Ora, isto abre todo um conjunto de hipóteses de erudição. Pois a gravata do senhor X pode conter uma cor que foi trabalhada até à exaustão por Matisse, uma senhora fala-barato pode sem querer improvisar meio verso escrito há muitos anos por Alexandre O’Neill, um par de namorados repete uma cena de uma comédia cinematográfica que nunca viu.

Sem disso ter consciência, o mundo acolhe em si pequenos fragmentos da vida intelectual. O mundo é erudito malgré lui, não consegue viver sem as citações que lhe dão sentido, beleza e história. E poderíamos alargar o âmbito desta vida cultural: pois a parangona de um jornal diário pode ter sido um achado verbal de um anonimíssimo senhor Y há muitos anos atrás, um sabor aperfeiçoado num restaurante pode uma vez ter sido encontrado por uma dona de casa distraída que se enganou nos ingredientes de uma receita, um poema medíocre de amor repete, linha por linha, outro poema medíocre de amor, escrito por outra pessoa num outro tempo segundo a mesma inspiração banal e adolescente.

Afinal, o que será o amor se não a citação reiterada até ao infinito de um erro de um qualquer par no princípio da história, a citação do génio do inconsciente, do acelerar do coração, da força da erecção?

Por que razão há quem se revolte contra o hábito da citação, quando nada há neste mundo que não seja a referência a uma outra coisa qualquer?

Encontrar algo que não seja citação será tão estranho quanto sair na estação de Belém, e ter nas mãos ouro, incenso ou mirra para presentear um infante que só vai fazer descobrimentos. E, hélas, a pólvora já foi descoberta há tanto tempo… Não se pode presentear sem igualmente passadar e futurar.

Malinconia

Viajava de comboio entre Lisboa e Porto. Experimentei fazer o percurso armadurado com os auscultadores do meu iPOD (é o que, afinal, arriscam muitos intrépidos viajantes).

O comboio fazia uma barulheira exorbitante, malcriada. A princípio, senti que os meus delicados ouvidos estavam a ser trespassados pelo gume da poluição sonora. Mas acabei por me aperceber de que a evidência terra-a-terra do esforço do veículo apenas tinha a faculdade de acentuar a melancolia das harmonias pouca-terra que sempre levo comigo.


(Imagem de Anne Arden MacDonald)

Publicidade 1

Deliciado por andar a vaguear pelo centro da cidade (onde outono, abandono e nebulosidade descentravam qualquer veleidade de abrigo), deliciado afinal por não estar dependente da atmosfera artificial de um centro comercial, decidi almoçar num pequeno café sem sofisticação chamado "O Astronauta".

O empregado já se movia com excesso de grave idade. Por trás do balcão, havia uma daquelas mulheres nas quais já não é possível distinguir entre sentido de humor e agressiva idade. Não havia Coca Coca Light (o eterno alibi para encobrir a dieta que não cumpro), não havia o B de melão (claramente o lado B desse incumprimento) e Compal de pêssego já só em versão natural. Parecia que o Destino me queria forçar a beber uma cerveja, que é aquilo que é suposto os homens beberem. Vá lá, safei-me com um Compal de ananás: esse sim, libertariamente fresco.

O panado tinha todo o tamanho de um planeta e o arroz de feijão vermelho sabia mais a asteróides do que a esteróides.

Tudo normal: é o Porto dito genuíno.

No entanto, no fim do repasto, o arrastado garçon apareceu com um prato tosco cheio de castanhas assadas, quentes e de boa qualidade, e com um copo pronto a encher de jeropiga segundo a minha indiscrição. Oferta da casa (não, não era uma tartaruga ninja nem uma manta para o cão). E como eu gosto de um mimo esporádico! Qual cidade e as serras, ele agora é sonae e as cidades.

Por isso, se forem à Rua Passos Manuel, em frente ao Coliseu, não deixem de tomar uma bebida no:


CAFÉ ASTRONAUTA
DAMOS-LHE O ESPAÇO DE QUE PRECISA.

O hábito não faz o leitor

No último número do JL, Gonçalo M. Tavares confessou que fica sempre intrigado quando uma pessoa lhe diz que já só anda a reler.

Sou solidário na sua crítica a todos aqueles que, um dia, decidiram que eram velhos e se retiraram por completo do presente. A curiosidade é a nossa mais preciosa máquina-do-tempo (assim como o mais verosímil tele-transporte). Abdicar disso é abdicar da sua própria liberdade.

Mas já não partilho da vontade de ler tudo o que interessa. Nunca tive ambições de me fazer enciclopédia, nem me sinto compelido a picar o ponto de todos os altares da literatura. Interessa-me ler tanto quanto me interessa reler.

Assim como não gostaria de conhecer todas as pessoas interessantes do planeta, gosto de entrar em relações de familiaridade revisitada com os livros que me vão tocando. O erudito talvez seja o verdadeiro viajante, que parte sem rumo e não precisa de se prender a nada. Mas eu sofro é de filias várias, e por isso cedo sempre perante a volúpia que existe nos regressos, na aceleração de relações, no mistério sem glamour da fidelidade.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Específica tragédia

No final do delicioso filme "Les parapluies de Cherbourg", os dois personagens principais estão perfeitamente pacificados com a substituição do absoluto sentimental que viveram por matrimónios sem chama. É Jacques Demy, o realizador, quem está tristíssimo com a situação, e a comoção do filme resulta precisamente do facto das personagens não terem consciência do drama que provocaram.

Quando leio no jornal que o piloto que lançou a bomba atómica em Hiroxima (num avião que ele baptizou com o nome da mãe...) afirma que nunca perdeu uma noite de sono por causa do seu acto de infinitas repercussões, pressinto que estou perante uma tragédia resultante da falta de consciência trágica do seu personagem. Por muito duro que isto soe, este homem deveria ter sido profundamente infeliz. Mesmo tendo julgado que a catástrofe nuclear foi feita para impedir mortes no seu país, mesmo tendo sido um mero receptor de ordens superiores, o piloto do "Enola Gay" não deveria ter encontrado nenhuma saída airosa para a sua continuação nesta terra.

Eis um muito bom assunto para um filme americano.

"Written on the wind" - imagem

O INACTUAL 21

"Written on the wind" - Douglas Sirk (1956)


O intenso filme de Sirk é perseguido por uma sumptuosa estética de Outono. As suas imagens foram construídas de modo a apresentarem a mesma preciosidade doentia da folhagem das árvores quando sofrem o golpe lento da caducidade. No entanto, ao contrário do que acontece em "All that heaven allows", este não é o Outono do envelhecimento sereno. Este é o Outono da palavra americana fall, é o risco que desequilibra a superfície polida da beleza, a morte que se insinua no mundo dos ricos.

Na verdade, o autor filma a exuberância social como quem intensifica o seu poder de sedução. A realização sublima o fascínio natural que a riqueza propõe. Só o discurso vem nela assentar como uma ferida. Se para isso o cineasta teve de recorrer a uma ficção melodramática, tal deve-se à pretensão que Hollywood sempre teve de que os espectadores potenciais dos seus filmes não seriam capazes de sofisticação. De qualquer modo, o melodrama traz a carga quasi-expressionista necessária para que se estabeleça uma ruptura de profunda comoção entre o fascínio da imagem e a agressividade da intenção. A riqueza aparece assim associada à mais profunda irresponsabilidade.

Contudo, num filme invulgarmente ousado, onde os personagens falam com alguma frontalidade sobre as suas relações sexuais, uma das possibilidades de leitura que se abrem prende-se com o problema do incesto. Os três protagonistas (Mitch, Marylee e Hadley) vivem um afecto intenso (e tortuoso) desde a mais tenra idade. Dois deles são mesmo irmão e irmã, mas Mitch não se consegue distinguir da consanguinidade emocional que os coloca aos três em posições inflamadas de amor-ódio.

A relevância dada ao corpo é de certo modo ridicularizada pelo argumento (a excessiva importância que Hadley dá à sua parcial esterilidade é a causa do culminar trágico que precede o happy ending de encomenda). Toda a ficção poderia, aliás, ter sido escrita no vento: o flash-back inicia-se quando o ar agitado começa a desfolhar um calendário. O problema do incesto não se apoia, portanto, num critério físico (nesse sentido, a obra opõe-se ao "Édipo Rei" de Sófocles), mas num critério psíquico-temporal: o excesso de passado fraternal faz com que o trio seja incompatível do ponto de vista sentimental.

É preciso que o vento varra o passado, que o faça cair e nessa queda insinue o renovo que há-de vir. Surge então a personagem de Lauren Bacall, que vem construir o lugar da alma gémea. Mas desta vez sem problema: a irmandade que se forma foi constituída na idade adulta, o que faz com que a latência do incesto não se consiga impor.

Este estranhíssimo filme bíblico vem-nos dizer que os amantes são irmãos que se entre-escolhem livremente.

O caso Llansol

Maria Gabriela Llansol não é uma profissional da escrita. O seu estar-no-mundo não se resume a um trabalho técnico inserido numa cadeia de notoriedades e retribuições. A autora desenvolveu o seu próprio (des)sistema de pensamento (a mutação que a forma romance sofre às suas mãos é o resultado desse gesto) e, mais do que isso, é alguém que vive de acordo com o projecto que vai escrevendo (pelo menos, a julgar pelos seus diários).

A escrita de Llansol é um atributo necessário da sua vida singular (ou melhor dizendo: plural).

Presumo que, no fim da segunda parte de "Lisboaleipzig", a rapariguinha humana se esteja a referir ao fazer amor quando:

"(...) voltando-se para__________ o texto, diz-lhe:
- Quando, por instantes, fazemos coincidir no nosso corpo a minha ausência com o teu inomeado,..... posso ir do quarto das sombras, em direcção ..... do fio de luz. (...)"

Anotações cinéfilas

1. Parece evidente que o grande cinema contemporâneo é quase todo de índole documental. No meu ponto de vista, a diferença de qualidade entre as propostas do DocLisboa e do IndieLisboa é abismal (este ano, como só teria um dia para visitar o certame documental, resolvi nem lá pôr os pés para não ficar depois a curtir a curiosidade frustrada). A ficção ou é mercenária ou é pretensiosa, mas quase ninguém encontra o tom justo. Será que desaprendemos a imaginar de forma tão radical?


2. Sei que a minha parcial frustração com o cinema contemporâneo não deriva de um feitio reaccionário. Outros períodos houve em que a produção média da sétima indústria também não era exaltante. Basta lembrar a década de trinta do século passado, década de Josef von Sternberg, John Ford e Jean Renoir, é certo, mas momento evidente de decadência criativa perante o esplendor que o mudo havia atingido. O estar-imerso-no-seu-tempo não pode ser assumido sem uma postura crítica.

3. Quando o meu afecto pelo cinema sofre um pequeno ataque de melancolia, basta-me recordar a obra de Fritz Lang e torno-me de novo militante cinéfilo.

4. David Cronenberg é, precisamente, uma excepção fulgurante no presente. Independentemente do maior ou menor conseguimento de cada filme, a verdade é que o autor consegue construir imagens (cinema é imagens, não propriamente histórias) que colocam em causa toda a serenidade do espectador. Estou a falar na primeira pessoa: há momentos da filmografia de Cronenberg que me perturbam de uma forma que eu nem sequer ouso confessar. Momentos desestruturantes da personalidade. Será polémico afirmá-lo, mas parece-me que, dentro dos géneros que o canadiano decidiu adoptar, já não havia imagens de cinema com tanta força polémica desde James Whale e Tod Browning.

5. Tendo sido particularmente seduzido pelo seu documentário sobre Cesariny, fiquei curioso do progresso futuro de Miguel Gonçalves Mendes. O filme que, em conjunto com a coreógrafa Vera Mantero, realizou em torno da obra da Llansol, tem um conjunto de notabilíssimas imagens-fulgor. Diria apenas que, ao contrário do que parece, os livros da escritora de Herbais têm um fio condutor (fino, finíssimo, mas poderosamente condutor). Pelo contrário, senti-me um bocadinho perdido na obra audiovisual. Assim como talvez a montagem de Mantero (os dois autores fizeram duas versões independentes do mesmo material filmado) tivesse uma respiração e uma lógica mais consistentes do que as de Mendes. No entanto, isto pode ter sido o resultado do primeiro choque com um objecto definitivamente singular. Agora, que ele sabe filmar, disso não haja dúvidas.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Manuscrito



Presentemente, estou a escrever um ensaio sobre este magnífico texto (o XL de "O guardador de rebanhos") de Alberto Caeiro.

(Clique na imagem para aumentar)

História mal contada

Uma das ironias da nossa evolução social foi o encontro histórico fortuito que se deu entre a tendência para o Homem se organizar em famílias e a ideologia burguesa. Pois na medida em que a família é um órgão de dinamização dos afectos, estaria em princípio muito bem posicionada para funcionar como um laboratório de aventura (um lugar catalisador de civismos, liberdades e realizações múltiplas).

Ora, o burguês é aquele que abdicou da imaginação (independentemente da definição política, económica, sociológica que lhe quisermos dar). Pior: é aquele que acha que esse desprezo lhe garante, de facto, a felicidade (sei-o porque estou rodeado de burgueses por todos os lados). A família tornou-se, por isso, uma instituição de formatação infantil, nomeadamente ao nível da identidade profissional e da realização sexual/sentimental.

Defender a instituição familiar sem a criticar é uma prova de insegurança intelectual. Rejeitá-la com agressividade só pode levar a um empobrecimento emocional. A nossa vocação gregária precisa de ser pensada e vivida com outra largueza de horizontes.

Tiradas da boca

Nunca consegui verbalizar a razão que me leva a desconfiar profundamente dos cursos e dos manuais de escrita criativa. O jornalista Paulo Moura (no PÚBLICO de 4 de Novembro) encontrou as palavras que me faltavam:


"Praticar sexo segundo os conselhos de um sexólogo é como compor um poema segundo o manual de escrita criativa."

sexta-feira, novembro 02, 2007

A imagem fria por fora



(Pintura de Paul Cézanne)

Dicionário 15

"Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante

não tem a utilidade de uma jóia:

é só um diamante (para um asceta)

só um dia amante (para um suicida).

Com uma jóia, sim, compra-se o mundo."

O poema de Luiza Neto Jorge de onde foi extraído este fragmento chama-se "Os frutos frios por fora". Mas nele a poeta declara que esses frutos "são por dentro aquecidos a electricidade".

Como as palavras, aliás. Dentro de si, o diamante só guarda a sua própria perfeição (que apenas pode interessar ao asceta) e o dia amante (aquele dia a partir do qual a felicidade se torna descendente, ou então aquele outro em que o suicida parte desta vida descontente).

Já a jóia, mais do que jóia é o escrínio onde se guarda a possibilidade de diamante, mas também a palavra italiana para alegria, ou a generosidade exemplar de alguns seres. A jóia é ainda o feminino de joio (que é o que as feministas separam do seu próprio trigo). E num sentido mais prosaico, a quota para poder ser sócio de uma associação qualquer (como a Vida S.A.).

Depois disto, alguém tem dúvidas quanto a cotações?

Adverbial parcialidade

Aproveito para assumir que sou inamovível, enraivecida, estupefacta, física e metafísica, infantil e profunda...

...mente contra o produtor da corrupção.

Sentados em círculo, conversam

".....- A terra quimérica do mundo.
.......- Onde só há alpendre - acrescentou a voz de Anna quebrando a regra do jogo.
.......Houve uma pausa, e disse ainda:
.......- Onde existem todas as histórias que contamos uns aos outros, e a nós próprios, os actos dos poetas, o som dos músicos; e onde os místicos procuram entrar, inteiros, com o seu próprio corpo.
.......- Tudo é casa de talvez - repetiu o cego, seguindo o mau exemplo. A sua voz levantou-se, mas a da jovem mulher cresceu primeiro:
.......- Onde se mudam as fraldas, se ajeita o naperon, se rega o vaso, se limpa o pó sobre o piano, se acende a vela, se abre o livro,...........e vírgula, e vírgula. Tudo por onde o gato salte sem quebrar nada."


Maria Gabriela Llansol

Confissão 24

Eu gosto imenso dos elementos que compõem o mundo: não concordo é com a maneira como eles estão conjugados.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Tradução 2

Poema "Correspondências" de Charles Baudelaire, traduzido por mim:


A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam 'scapar por vezes confusos vocábulos;
O Homem erra por estas florestas de símbolos
Que o observam com seus olhares familiares.

Como ecos demorados que ao longe se fundem
Em uma tenebrosa e profunda unidade,
Imensa como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons correspondem-se.

Como a carne infantil há perfumes bem frescos,
Como oboés, doces, verdes como as pradarias,
- E há outros, corrompidos, em glória, opulentos,

Detentor's da expansão das coisas infinitas,
Tal o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam a alma e o corpo em arrebatamento.


Para ler uma breve fundamentação da tradução, ver o meu blogue do myspace.

"Les chansons d'amour" - imagem