terça-feira, outubro 30, 2007

Partilha 23

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)



Depois da luminosa viagem de comboio, percorro Lisboa com o auxílio do metropolitano (o estrangeiro só pode participar na vida paralímpica de uma cidade).

Mudam-se os meios de transporte, mudam-se os pensamentos. Levo, nas mãos, o segundo volume de “À la recherche du temps perdu” de Proust. Não conseguiria plantar toda essa flora verbal nas paisagens concretas que o comboio me havia proporcionado (questões de exigências climáticas por parte das palavras, que só se dão em estufas de imaginações incompletas). Mas agora que viajo no metro, que entre as estações só tenho direito a um negrume que absorve em si todas as possibilidades da fantasia, e que a qualquer momento posso ser depositado não tanto em Roma, na Praça de Espanha, ou no Oriente, mas nos braços dos Anjos, na fartura das Laranjeiras, ou mesmo na Pontinha (não há aqui nenhuma cedência ao imaginário erótico; para além da minha fixação, mais nobriana que propriamente lusitana, nos inhos, não consigo deixar de sonhar com a perspectiva de chegar mesmo à pontinha de qualquer coisa, do mundo, desta vida, etc.), penso que seria este comboio, e não a sua versão solar, que a qualquer momento me poderia fazer chegar à Balbec perdida no tempo de um livro.

(Divertimento: para construir a máquina-de-viajar-no-tempo, tomar em consideração a necessidade de a colocar num contexto de total ausência de luz. Só o negro, o vazio, é cheio de possibilidades feéricas).

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