segunda-feira, outubro 15, 2007

O INACTUAL 20

"Bande à part" - Jean-Luc Godard (1964)



A vida é um romance policial de baixa qualidade. Apesar deste filme só ter aproveitado o esqueleto do texto que lhe deu origem, Godard recusou-se a fazer dele um enchido narrativo-psicológico. Por isso, o que circunda o inquieto movimento das personagens (a acção permitida pelo dito esqueleto) é nada mais do que um vazio existencial que as obriga a terem de matar o tempo. Daí a sensação de falta de norte que (des)orienta os diálogos, os momentos de ócio, a suspensão. O minuto de silêncio está latente em toda a obra.

A carne do filme é outra. Exactamente como o trio protagonista decide percorrer o Louvre num tempo recorde, todas as acções mesquinhas e agitadas do argumento decorrem dentro dos impulsos semânticos trazidos pelas outras artes. Dentro da canção (a montagem de música ligeira com música concreta), dentro da escrita (a voz-off fala com estilo literário trabalhado), dentro da pintura (a busca da composição menos estável). São as imaginações que, afinal, conferem sentido à enigmática dança dos humanos.

Assim, num mundo que, contado, ninguém acredita (como sugere a parábola do índio), a grande dificuldade com que os Homens têm de se confrontar é a sua organização em grupo. "Bande à part" relata a difícil passagem da multidão à plenitude. Ou dito por outras palavras: a eliminação do terceiro elemento de um grupo de modo a que possa surgir um par. Eliminação essa que é extremamente violenta, e que só pode ser figurada pela presença-limite da morte (como em "The big sleep", de Howard Hawks). Assim, a actualização de "Romeo and Juliet" não se faz dando uma identidade modernaça aos Montéquios e aos Capuletos, mas investigando o que é que, no mundo contemporâneo, conforma um impedimento ao amor. E que é, paradoxalmente, a própria libertação do amor.

Curiosamente, numa outra parábola Godard parece querer afirmar que, mesmo após a sua queda, mesmo após o mergulho na dor, o indivíduo continua a não ter noção de quem é. Por isso, entre o lied da infelicidade colectiva que Anna Karina entoa no metropolitano (o centro da terra) e as múltiplas formas de escape pelo gozo sugeridas pelo enredo (como a sonhada corrida de carros em Indianápolis), Godard parece fazer finca-pé ético na individualização plena dos seus actores/personagens. Com pinceladas rápidas, só esboçadas mas vitais, o autor transmite-nos a intensa humanidade de uma rapariga romântica, de um solitário culto, de um violento sensual. De três para dois e para um - todo o conflito das relações humanas.

Mas tudo muito rápido: os grandes cineastas são os que filmam mais depressa ou mais devagar do que a norma.

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