domingo, outubro 28, 2007

O coleccionador 10

Os olhos


Estão maduros de lagos.
Que corpo feliz aguarda
essa água funda? Já tarda
sua madurez de afagos.
Vem-me a sede da raiz
dos ossos. E quanto fiz
ficou à margem do mundo
como um caminho de peixes
à espera de que o deixes
tentar as águas do fundo.


Neste poema de Fernando Echevarría, a força lírica resulta do constante upgrade do conceito de sede. Se nos primeiros versos, a necessidade do sujeito lírico é o carinho pós-juvenil, logo logo a sede se enraíza nos ossos como se essa carência não fosse apenas mais um aspecto da vida, mas a carência mais profunda (física, inconsciente, decisiva).

Por fim, o amor é revelado como gesto metafísico: toda a biografia do poeta se torna um caminho de peixes (imagem de uma beleza aterradora). Ora, a relação dos peixes com a água é uma relação de sobrevivência. A sede deixa portanto de ser um mandamento da alma e torna-se uma questão de vida ou morte: só se assim se pode tocar no fundo do Outro.

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