sábado, outubro 20, 2007

Nota "Torre Bela"

O documentário de Thomas Harlan tem uma relevância quase assombrosa.

É fácil, para o espectador actual, rir-se do grande ridículo que lhe é apresentado. Mas esse é, francamente, um riso de classe (passe o marxismo), o riso de quem não entende que, naquele momento e perante os dados históricos que se lhes apresentavam, aquelas pessoas só podiam ter dado aquela resposta ao desespero intenso que as tolhia.

A obra é fértil em poderosíssimos retratos (desde o líder espontâneo com ar de galã rural até ao sisudo incapaz de discursar sem falar dos filhos que tem para criar, etc., etc.). Pode servir a quem quiser desenvolver uma sociologia da reunião (que é uma modalidade do absurdo: sabe-o quem já participou em reuniões), ou uma tragicografia da ignorância (o povo nunca se poderia salvar com uma utopia tão sofisticada)...

E podemos lamentar todos aqueles que, em pleno lume político, se comportam com o romantismo artificial de quem leva no peito uma missão (os fdps). E solidarizar-nos com os que nunca esquecem a urgência concreta de uma qualquer agitação revolucionária - como aquela brava senhora que defende o 25 de Abril porque, afinal, este lhe permitiu fazer uma boa colheita de azeitonas.

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