segunda-feira, outubro 22, 2007

Nota "O construtor Solness"

A peça de Ibsen (em cena no Teatro da Cornucópia) guarda em si algumas perversidades nada negligenciáveis.

Desde logo, a sugestão de que o protagonista terá cometido um abuso de cariz pedófilo sobre a personagem Hilde quando esta era uma pré-adolescente. Não porque a pedofilia em sentido rigoroso esteja aqui em causa, mas porque assim se insinua um problema que, apesar de menos trágico, não é menos relevante: o ascendente erótico que o adulto tem sobre a criança ou o adolescente. Dito de outro modo, o facto da sedução intelectual que o adulto exerce sobre o menor se misturar sempre com a complexa maturação sexual que este está a sofrer (numa idade em que ainda não se pode saber que ao sexo o que é do sexo). O que implica que uma realidade intelectual possa ser recebida com toda a força da evidência sensual, provocando uma metamorfose decisiva no espírito pueril. Metamorfose que, aliás, pode ter os melhores ou os piores resultados (por vezes, ambas as coisas indistintas num ser só: é o caso de Hilde).

Interessante também a nebulosidade da culpa que permite passar de um espírito de missão religiosa para uma prática familiar burguesa. Não porque uma seja a causa provada de outra, mas porque talvez seja necessário um mesmo carácter para perseguir duas vocações na aparência tão diversas.

E no fundo, a peça é essencialmente o retrato de um tipo psicológico específico. A tentativa de fazer corresponder a prática da construção à mitologia da Construção leva os dois protagonistas de frustração em frustração até à vontade peregrina de quererem construir castelos no ar. No fundo, a morte de Solness era necessária pois só nesse desenlace se poderia atingir a identidade entre realidade e ideia. Solness e Hilde são ambiciosos. São românticos, intelectuais e hipócritas. Se as personagens de "A gaivota" (de Tchékhov) têm sonhos (necessidades genuínas), as de "O construtor Solness" têm ideias (pretensões). Nina salva-se porque o símbolo-gaivota lhe é imanente; Solness é demasiado sério para saber voar dentro de si mesmo. Enfim, o que Tchékhov sabia da vida, Ibsen (escritor de causas) apenas julgava saber.

Luís Miguel Cintra entendeu todas as cambiantes da sua personagem, desde o background de rudeza até à lubricidade de velho. A Beatriz Batarda é impossível alguém lhe querer mal, e por isso as zonas de sombra da sua Hilde acabaram por passar de mediocridades a bizarrias. Teresa Sobral tem a tristeza marcada no rosto (é uma actriz extraordinária); mas eu talvez tivesse preferido um pouco menos de imobilidade no seu sub-texto (como seria, afinal, o sorriso daquela mulher?).

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

Curiosa a grafologia do Ibsen - é dele? - toda para trás, como se fugisse de cena com muita nitidez...

E um excelente tecto crítico que nos dá conta dos labirintos, que se tornaram emblemáticos, que contornam, assediam, provocam toda a "angústia da interpretação" à roda do contrutor Solness.

Como contra nota de contra rodapé: Solness ou Soulness : s.m. sem alma, que as linguas nórdicas e o anglo~saxão andam presas por mil fios, como o demonstrou infinitamente J.L. Borges.

Solness: um nome actual que podia ser o nome genérico de todas as Construtoras actuais.

Miguel Drummond de Castro disse...

Ops! Em vez de grafologia queria dizer grafia.