sábado, outubro 20, 2007

No escrínio 32

Poema "Nome" de Luís Quintais:


I

Corrigi versos
e a tarde declina
agora
e tudo grita
o teu nome:


II

deflagra o fruto
no chão
do quarto:


III

eu vou arroteando
o cimento
com
aras
de aço:


IV

olhos, os teus.



Luís Quintais é o grande poeta sisudo da minha geração. É o tipo de intelectual que, para falar de amor, precisa de recorrer ao Wittgenstein. Declara-se mesmo avesso a "magias menores, alumbramentos e metamorfoses, actos rituais e fogos de artifício nos longes da alma". A sua dicção é sempre solene. O humor, escasso.

Não poderia ser mais distante do meu universo. E no entanto, a sua poesia toca-me profundamente.

Este enigmático texto aqui apresentado abre o seu sentido com a ideia subtil de "correcção de versos". E de facto, toda a sua estrutura parece querer evocar um esforço de tentativa e erro, no qual o assunto que deveria ser tratado pelo poema (a nomeação da pessoa amada) vai sendo desenvolvido através de propostas que quase se anulam entre si. II corrige I, III corrige II, IV corrige tudo o que está para trás. É certo que, no livro de onde o texto foi extraído ("Canto onde"), está latente a ideia de uma ruptura relacional (e o advento de um novo afecto). Ou seja, uma correcção (não nos é dito se o grito é de exultação ou de dor). No entanto, tudo isso pode ser mero discurso e não ter nenhuma equivalência ao nível da biografia do poeta.

Relevante é aquilo que o poema diz sem parecer que o diz. A começar pelo sentido crepuscular que começa a tocar um indivíduo com quase quarenta anos de idade. Mas também a evocação metafórica do fruto feminino em chamas (Quintais fala muitas vezes dos filhos, com ternura e gravidade). Ou a quase oposta ideia do sacrifício afectivo num altar de aço. Ou ainda a poderosíssima imagem do Homem como um tenaz arroteador do cimento (alguém que, no fundo, tenta tornar fértil o mundo que ele próprio criou). A polissemia do texto resulta do próprio esforço de correcção, que o poeta torna coerente através da continuidade ética entre vida e criação.

Na impossibilidade de individualizar um nome, o que o autor tenta é conferir ao texto a plenitude de um pronome absoluto. Não será casual que o último verso da primeira estância termine como "o teu nome", enquanto que o verso que termina todo o poema já tenha a formulação "olhos, os teus" (com o isolamento sintáctico e morfológico do elemento possessivo). O texto surge, literalmente, no lugar do nome. Ou porque esse nome seja afinal contingente perante a necessidade afectiva-existencial descrita (por outras palavras: a necessidade una e constante de amor faz-nos amar múltiplas pessoas). Ou porque esse nome se mantém secreto (inominável) mesmo quando concretizado. Enfim, continue o leitor a rasgar o sentido que aqui se lhe oferece.

O importante é o plural que o pronome "teu" adquire. Pois plural é toda a experiência poética e vital enunciada. E plurais são os olhos (ao contrário do nome que nos tenta simplificar numa identidade estanque). Olhos que são, claramente, as aras de aço com que o poeta tenta arrotear o cimento.

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