quinta-feira, outubro 04, 2007

No escrínio 31


Poema de Jorge de Sena:


Marinha pousa a névoa iluminada,
e dentro dela os pássaros cantando

são crepitar das ondas doce e brando
na fímbria oculta e só adivinhada.


Verdes ao longe os montes na dourada

encosta pelos tempos deslizando,

suspensos pairam no frescor de quando

eram da sombra a forma congelada.

Ao pé de mim respiras. No teu seio,

como nas grutas frias e sombrias

os animais pintados adormecem,


sereno seca um amoroso veio.
Um após outro hão-de secar-se os dias
na teia ténue que das eras tecem.



No livro de sonetos "As evidências", o poeta Jorge de Sena conseguiu articular as suas interrogações acerca da tensão entre a Corporalidade e o sentido da vida (provavelmente o seu tema mais relevante) com uma estética simultaneamente inspirada e controlada que tende para a monumentalidade clássica.

Este poema concreto (o soneto XI) parece querer descrever uma cena pictórica cliché na qual dois amantes despidos repousam ao ar livre numa paisagem de ambiência fantasmática (montes cobertos por uma névoa fria).

O texto tece a sua teia ténue de metáforas (tanto os montes como a própria névoa acabam por funcionar como representações dos seios femininos), que adquire relevância expressiva e semântica enquanto dispositivo que acusa a passagem do tempo (dos dias) sobre o amor (ver este post).

A metaforização é, aliás, retrospectiva (só se revela com a leitura da terceira estância), como retrospectivo é todo o pensamento sobre um amor efectivamente vivido. No entanto, essa estância não se limita a atear a emoção lírica (na medida em que rasga uma iluminação no texto), pois serve acima de tudo para propor um paradoxo: este amor vivido só é declamável pelos seus fantasmas (ou seja, pelo amor pensado). É esta, de resto, a função da metáfora (que os retóricos insistem em não compreender).

O tempo que aqui desliza é cronológico e meteorológico. Para acompanhar a secagem do amoroso veio, os pássaros vivos e cantores da primeira estância são imobilizados em pinturas rupestres. Mesmo a névoa (que à boleia das aves formava uma etérea gruta fria e sombria) sofre um processo de solidificação (torna-se geografia montanhosa).

Enquanto o sangue arrefece (porque a noite se aproxima, porque o par está a envelhecer), produz-se uma metamorfose poética no sentido oposto ao da sublimação química. Mas este amor que seca não é necessariamente uma paixão decadente. Pois o que o pensamento consegue aqui tocar é todo um conjunto de imagens primeiras, primordiais: não só a arte rupestre, mas também uma Sombra arquetípica que parece ter sido génese das formas terrenas.

O sentido talvez seja outro: quanto mais conhece o seio da amada, melhor o poeta compreende a respiração efémera da eternidade.


(Imagem de Brian Kosoff)

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