sexta-feira, outubro 26, 2007

Linhagem vitalista

Normalmente, tendemos a considerar que a Ética é uma ficção (uma auto-contenção do intelecto perante o nonsense selvagem da vida).

No entanto, Espinoza veio dizer-nos que toda a lei ética pode ser deduzida da lógica do próprio mundo (de Deus), na medida em que mundo intelectual e mundo físico são apenas atributos (chamemos-lhes, com muito pouca propriedade, pontos de vista) de uma mesma Substância. A psicologia seria, portanto, a capacidade do espírito humano estar em maior ou menor consonância com a Razão.

Nada disto é verdade, claro. Mas o filósofo teve pelo menos a intuição de fundar a ética no próprio real, e não a despeito do real (como é o caso dos Dez Mandamentos herdados da transcendência). A lei resulta portanto visceral: é o resultado da nossa busca material de alegria individual e colectiva.

No cinema, ninguém filma a realidade (acreditar nisso seria uma ingenuidade gnoseológica). No entanto, na obra dos grandes autores éticos, o que dá plena força à dimensão ficcional do seu gesto (John Ford é um cineasta de discurso, Straub/Huillet filmam a literatura) é a pungência da realidade que documentam. Não há nenhum olhar, nenhuma entoação vocal, nenhuma majestade ou doçura erótica, nenhum sinal de vento ou de luz que estes autores filmem sem profunda comoção. É o cinema livre de fórmulas. O cinema de entrega à vida.

Se não se pode filmar a realidade, pode-se filmar a vitalidade com que esta se desmaterializa nas imagens. Quer-me parecer que o grande Pedro Costa, ao contrário do que ele próprio afirma, não pertence a uma linhagem realista, mas sim a uma linhagem vitalista.

Como de resto, muitos outros autores que ele talvez nem aprecie (Godard, Fellini, Paradjanov, etc.).

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