quarta-feira, outubro 10, 2007

Crónica do voo

Nenhum homem é capaz de voo.

No entanto, se a faculdade do canto é teoricamente universal, a verdade é que a prática desse dom ornitológico contribui de modo particularmente intenso para a infinita variedade com que o humano se conjuga.

Seria a nossa vida mais justa se o negócio com os pássaros tivesse sido o oposto? Se a música vocal nos estivesse vedada e o voo fosse a forma comum de levar vibração ao desejo de sentido?

Desde logo, a nossa carência seria bem menos física. Afinal, o que projectamos no canto é algo que se pode tornar absolutamente independente de nós (o som). Se nunca tivéssemos sabido cantar, essa falta pesar-nos-ia tão pouco quanto hoje nos pesa o desconhecimento de um sexto sentido.

Já a carência do voo nos dói mais. É que a perícia alada não só produz vibração emocional como também transporta o corpo de lugar para lugar com liberdade e velocidade excepcionais. O que projectamos no voo? Nós-mesmos. Cabalmente.

Mas se pudéssemos voar, voaríamos todos de formas diversas. Desde logo, é certo que haveria mudos. Gente que, por uma terrível maldição patológica, não saberia dar uso às suas asas. Teriam de voar através de estranhos aparelhos artificiais. E isso talvez fosse bom: os aviões seriam análogos a um código gestual, encheriam o ar com mais enigmas do que ameaças.

Haveria roucos, claro: voadores menos perfeitos, mas nem por isso menos sensuais. Frequentariam consultas regulares de médicos cuja especialidade teria um nome maior do que otorrinolaringologia.

Não nos livraríamos dos artistas. Sopranos, contraltos, tenores e baixos encheriam os céus com as suas idiossincrasias capazes de coreografia coral. Haendel, Bach ou Luigi Nono abandonariam as pautas para se tornarem peritos numa notação bem mais pictórica. Uma mulher voaria demasiado perto do limite da atmosfera: chamar-se-ia Callas. Um homem seria capaz de exorcizar a terra no céu: chamar-se-ia Bob Dylan. Planadores carismáticos, Bogart e Bacall ter-se-iam encontrado num ecrã um pouco menos imaterial. Hitchcock filmaria o ataque de juke-boxes. Grandes virtuosos entreteriam o planeta ora em AM ora em FM.

No grito, perder-se-iam penas literais.

O bebé confirmaria a sua vida num pequeno golpe de asa.

Então, eu escreveria uma crónica nostálgica do canto.



(Imagem de Quint Buchholz)

6 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

excelente post!

pedroludgero disse...

Obrigado__

dora disse...

voas... ( voei ) muito.

Terpsichore E. M. disse...

Caro Pedro
Obrigada por ter juntado A Ilha dos Amores aos seus links. O Cabo da Boa Tormenta há tempos que já lá mora...Fico um pouco curiosa da razão das minúsculas,mas será insignificante detalhe...
Cumprimentos

pedroludgero disse...

Dora, obrigado__

Cara Terpsichore, nem sequer reparei que tinha escrito o nome do blogue em minúsculas... Foi uma distracção, que será corrigida. Minúsculas para tão belo título?

Terpsichore E. M. disse...

pronto, já está mais ''igual aos outros'', obrigada Pedro.