sábado, setembro 15, 2007

Teatro não (almo)fadado

"The pillowman", de Martin McDonagh, é uma reflexão poderosa sobre o conceito de fim (não apenas no sentido de "morte").

O enredo principal avança por surpresas narrativas (a reviravolta, um prazer rápido e incisivo, é quase uma instituição entre os anglo-saxónicos). No entanto, cada surpresa dirige a atenção do espectador para uma dimensão específica da responsabilidade.

Quando sabemos que o rapaz atrasado cometeu crimes porque se inspirou nas histórias doentias que o seu irmão escrevia, somos obrigados a reflectir sobre a responsabilidade do artista (um dos principais produtores de imaginário na sociedade). Quando a expectativa gerada em torno de um terceiro infanticídio é quebrada com um desenlace tão irreal que parece burlesco (a menina que se julgava violentada estava afinal bem viva, inocentemente rodeada por animais), a responsabilidade em causa passa a ser a do homem por trás do artista (o escritor é tão obcecado que é capaz da farsa mais imoral só para garantir a imortalidade das suas obras). Por fim, quando os escritos não são queimados devido à fraqueza generosa de um polícia, só porque isso está mais em consonância com a perfeição da narrativa, aí é a própria narrativa que se oferece ao foco da análise. Afinal, educados que fomos para que uma história tenha uma moral, ficamos inquietos quando a perfeição de uma narrativa equivale a uma ambiguidade ética insuportável (note-se que o escritor fantasia mesmo que o irmão aceitou ter uma vida horrível só para que os seus escritos pudessem surgir).

Se o fim que o Homem Almofada traz (a morte deus ex-machina antes da infelicidade) está errado porque, se fosse aplicado com rigor abrangente, a Humanidade inteira era condenada à eutanásia, o fim impecável da narrativa (a lógica de uma ficção) impede os homens de viverem bem.

Não conheço o restante trabalho do dramaturgo, mas parece-me que, depois disto, ou ele mina o seu próprio talento para a narrativa, ou a abandona por completo.

Só não percebo porque tínhamos de estar sempre a rir durante um espectáculo que abordava assuntos tão insuportáveis. Será que o autor pretende que o seu texto derrame um humor negro pouco responsável? O encenador foi pouco sofisticado com o tom? O público estava descontrolado?

Uma palavra para os quatro actores: para quem acha que os intérpretes portugueses são medíocres (e, de facto, quem só os vê em telenovelas não pode deixar de pensar assim), basta ver o exímio trabalho de Nuno Lopes (sempre muito físico), Gonçalo Waddington (perfeito de cobardia patológica), Marco d'Almeida e João Pedro Vaz, para mudar de opinião.

Sem comentários: