terça-feira, setembro 11, 2007

Relatório para um cínico

Maria Gabriela Llansol constrói a sua obra para indagar a possibilidade do humano viver em consciência livre (especialmente no que se refere à sua relação com o Príncipe) e com acesso ao dom poético. O seu silêncio é o oposto do silêncio de Wittgenstein. Llansol defende um silêncio através do qual os seres possam comunicar e onde se pode dar o encontro inesperado do diverso.

No entanto, não é nada seguro que todo o homem tenha intenções de aceder ao dom poético. E muito menos seguro é que alguma vez essa contaminação generosa se venha a dar, ou que até não fosse um estado de coisas contraproducente (mas a Llansol pode ser mais visionária do que eu). Mais do que exprimir com precisão a natureza da espécie humana (que, de qualquer modo, e segundo Ortega y Gasset, é apenas a sua história), a autora exprime a sua própria natureza, a sua inocência enquanto ser vibrante.

O mesmo o fez Dostoievsky em "Crime e Castigo", ao supor que o homem precisa de assumir o seu crime para que o peso da culpa o deixe de atormentar.

Mas o inocente nada tem a ver com o ingénuo. O inocente é aquele que existe em constante disponibilidade para a dimensão de si mesmo que luta contra todo o sofrimento. O ingénuo é apenas o que não sabe nada da vida, é o idiota.

O cínico tem de existir (é uma peça essencial ao mundo). Mas eu só respeito o cínico que conhece a diferença entre a inocência e a ingenuidade.

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