domingo, setembro 23, 2007

Post higiénico

Subscrevo o seguinte parágrafo escrito por Pedro Mexia no PÚBLICO de 22 de Setembro:


"Em 1961, o artista conceptual italiano Piero Manzoni (1933-1963) levou a escatologia moderna ao extremo, vendendo noventa latas contendo cada uma 30 gramas dos seus excrementos. A produção (digamos) chamava-se Merda d'Artista. Eis uma ajustada junção dos sentidos denotativo e conotativo; não só aquilo é a merda do artista, como configura um artista de merda: aquele que vende a sua própria merda".


Não vou desenvolver a questão, nem sequer dar-me ao luxo da elegante ambiguidade do cronista: afinal, este é um assunto de merda. Gostaria apenas de perguntar ao artista (que, infelizmente, a morte já saneou) qual a intimidade da sua relação com o excremento, já que eu, com certeza menos sofisticado, apenas lhe dou atenção quando preciso de o tirar do ânus.

Uma das minhas cenas favoritas do cinema cómico recente surge no filme "Querido diário", quando Nanni Moretti se dirige ao leito de morte de um crítico de cinema e lhe lê o complexo (e absurdo) texto de elogio que ele tinha escrito a propósito de um filme qualquer sobre um serial killer. O paciente torce-se de agonia: sabe que o Inferno o aguarda. Quantas vezes penso nessa cena a propósito de curadores, comissários, e toda essa brava fauna que as consegue tirar do cu com um gancho.

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