domingo, setembro 23, 2007

Peter Pã (confissão 24)

Cada cineasta submete os seus sonhos ao julgamento do público. Apesar da fragilidade da narrativa de "O capacete dourado" (não só a história já tem algumas barbas, mas também os pormenores não foram bem aparados), eu assumo que prefiro, de longe, o sonho de Jorge Cramez aos onirismos de Peter Jackson ou Quentin Tarantino.

Cramez filma o amor adolescente como sendo a vertigem que, precisamente, consegue interromper a narração. Tem, por isso, toda a lógica que ele tenha evitado o final dramático do argumento que lhe ofereceram e tenha levado o seu par amoroso a um estado de mera suspensão. Descobrem a energia que os acompanha no fogo, na água, nas estrelas, na dança ou na velocidade das motorizadas, e é só esse lirismo que o seu cinema pretende oferecer. Pois o que, de facto, lhes vai acontecer, já pertence à rudeza aleatória da vida.

Infelizmente, eu não conheci (nem conheço) o tipo de adolescência que este filme revela. Contemplo jovens nobremente ocupados das sete da manhã às dez da noite, conformados à educação parental e às evidências do consumo, incapazes de transgressão ou descontrolo. São apenas inseguros, e bonitos por assim o serem.

Aproveito assim para revelar uma das frases mais graves que já alguém me disse. Um colega meu do passado que, no princípio da maioridade, era um insuportável e ortodoxo marxista (devidamente rodeado por um ambiente sinistro, pois contava com orgulho que a sua mãe festejara com alegria o 11 de Setembro), disse-me uma vez que achava que ter cinquenta anos e ser comunista era uma prova de profunda imaturidade. Então, eu pergunto: porquê? Para quê essas ilusões todas, se tudo isso é uma comichão passageira e inconsequente? Se nada se mantém da aceleração juvenil, então ela parece-me profundamente inútil.

Com bravura, Jorge Cramez manteve este filme dentro de si.

E é por isso que, contra as críticas que os meus próximos me fazem, eu faço esforço para não crescer muito. Tento manter-me o mais leal possível ao que eu penso ser a minha natureza.

Sem comentários: