terça-feira, setembro 04, 2007

Partilha 19

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um micro-conto de Veneza.)




Pensar é o mesmo que dar cubos de açúcar à realidade.

Espinosa sabia-o. Mas o seu pensamento ainda não estava em ponto, e por isso, muitas das coisas que ele, de facto, sabia, não sabia que, no fundo, as sabia.

Vivia em Veneza porque a si mesmo se proscrevera da imperfeição fatal. Bastava-lhe dar um pequeno passeio pela cidade, observando os habitantes nas suas gôndolas morais, para que a humanidade lhe parecesse clara como a água. Ali se vivia de modo diferente: há muito que os venezianos tentavam domar o seu pequeno mundo, derretendo-o progressivamente com a substância química de Deus. Era uma Cidade.

O filósofo vivia atormentado com um problema: não sabia que nome dar àquela rara alegria que alguém pode sentir com o bem de outra pessoa. Como era subtil, tinha a certeza de que este não era um dilema linguístico, mas uma perplexidade do real. Ou porque tal alegria só existia em hipótese, ou porque se exprimia na vida de um modo tão subentendido, tão oblíquo, que seria preciso recorrer a uma língua mágica para encontrar a palavra desejada. Ora, Espinosa só acreditava na Razão.

Naquele dia, o almoço, mais excessivo do que desejaria, tinha-o deixado ensonado. E se os homens despertos só se exprimem por utilidades, e aqueles que dormem só sabem sofrer absurdos, o homem ensonado é o único que sabe conjugar o pensamento com o real à maneira de um geómetra divino. Aliás, dizia-se, em Veneza, que a soma dos três ângulos da vigília era sempre igual à soma dos dois ângulos da rectidão: a da Alma, e a do Corpo.

Estava Espinosa a descansar de frente para uma janela, incapaz de impedir o forte instinto da contemplação, quando alguém bateu à porta. O filósofo foi ver quem o incomodava àquelas horas: era um cavalo alado. Um bicho branco, maior do que aquilo que era normal na sua espécie, com uma crina tão exuberante que só poderia ter sido obra de um demiurgo (essas coisas todos sabemos por inspiração), e umas enormes asas sem nenhuma pena da fantasia.

– Monta sobre o meu dorso. Levar-te-ei até Deus, e conhecerás tudo aquilo que ainda te faz ignorante.

No entanto, Espinosa não se impressionou. Sabia que este animal não existia, e que, mesmo se existisse, seria instrumento inadequado para chegar a Deus: Este é de tal modo generoso em imanência que não está ao alcance de asas.

Fechou a porta, e regressou ao descanso.

Ao bater o fim da tarde (os relógios que ele construía não tinham números mas palavras), o pensador foi fazer o seu passeio rotineiro. Ele defendia que a sua arrogância era uma obsessão pela alegria, e por isso desafiava tudo aquilo que pudesse atrasar o Homem com sentimentos menos potentes. Ao sol poente, chamava-lhe mesmo uma cebola: alguns poetas, pobres imbecis, perante o crepúsculo desatavam a chorar. Espinosa, pelo contrário, tinha a luz permanente do seu rigor.

Numa ponte pouco frequentada, encontrou um cavalo. Mas um cavalo sem asas, sem fala, amarelado, nada tendo roubado à natureza dos homens. Como apreciava os prazeres da vida, subiu para o dorso do belo animal, e incitou-o a prosseguir com calma. Espinosa sentia-se feliz. As coisas estavam todas no seu sítio.

Mas eis que o cavalo levanta voo.

– Como pode isto ser possível? Este cavalo nem asas tem…

Caro Espinosa, para os homens sem tragédia, a imaginação é sempre um destino. Aqui está a sua resposta.

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