quinta-feira, setembro 06, 2007

Outras (porno)grafias

Exposta na Casa de Serralves, a peça "Dirty mind" da artista Luísa Cunha tem uma configuração bastante simples: um estore (apropriadamente encarnado) entreaberto como se uma mão nele tivesse tentado encontrar um espaço para a visão, e uma voz gravada que repete uma lengalenga sem sentido aparente.

Num primeiro momento, a obra apresenta-se como uma figuração do voyeurismo sexual frustrado: pois quando o olho atravessa a abertura do estore (que não deixa de evocar um orifício corporal pronto a ser penetrado) só encontra a parede.

No entanto, há a questão da lengalenga. Se o espectador não vê uma imagem real, são-lhe contudo fornecidas imagens sonoras. Esta evolução em direcção ao diáfano (palavras inscritas na parede como se fossem graffitis invisíveis) entra em acordo com o discurso gravado. "I saw you going in, going down, disappear, getting near, getting out" não me parece um mero nonsense destinado a questionar a postura do observador, mas uma paródia à filosofia, semelhante àquela a que todos por vezes recorremos: "Quem sou eu?, de onde venho?, para onde vou?". Abandonados à rarefacção, in, down, disappear, near, out adquirem uma ressonância incómoda.

Por outras palavras, a verdadeira sujidade da mente é a sua vocação metafísica. E assim a peça ganha toda a sua lógica: a corrupção semântica que as palavras (o logos) emprestam à nossa relação com o mundo colide contra a barreira da matéria imperscrutável. O pensamento abre uma janela para lado nenhum.

Apesar de não concordar muito com este ponto de vista, o achado criativo de Luísa Cunha parece-me notável.

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