terça-feira, setembro 11, 2007

Ofícios duros de roer

Eu, que sou gordo, preguiçoso e desajeitado, tenho admiração pelas coisas do corpo. Mesmo não gostando de desporto, reconheço que sobre um atleta que chegou ao topo da sua profissão não paira nenhuma dúvida sobre a sua qualidade, sobre a validade da posição atingida (a não ser nos casos pontuais do doping). Ou seja, se o Roger Federer ocupa o primeiro lugar no ranking mundial do ténis, é porque o merece. E sobre esse merecimento, poucas sombras pairarão (é claro que a criança que nem teve direito à alimentação e à vacinação poderia até ter sido um tenista superior, etc.).

No caso do criador artístico (e recuso a figura do artista comercial, porque não sei o que é um tenista comercial nem um advogado comercial), a validade do seu trabalho é medida pelo discurso crítico. Ora, é claro que pode haver autores aclamados que se calhar não o merecem. E vice-versa. Por isso, tão importante quanto a crítica da obra de arte é a crítica do crítico. Pois há casos de submissão infantil ao cânone recebido, mas também há iconoclastias profundamente injustas, há vaidades e orgulhos insuportáveis nos profissionais da crítica, há agendas políticas, concluios de amizade, etc. De qualquer modo, continuamos a acreditar que o tempo acaba por ter uma função reguladora, e que o trigo é efectivamente separado do joio. Se hoje continuamos a amar a obra de Homero, é porque ela também o merece.

Mas quando um advogado (que nunca é comercial porque a sua relação com o Direito é sempre científica) atinge o topo da sua profissão (quinhentos a mil euros ganhos à hora) por, entre outros merecimentos, ter conseguido evitar a extradição de um ditador criminoso, e mesmo tomando em consideração o facto de haver uma imensidão de advogados honestos por esse mundo fora, isso só me demonstra como fiz bem em recusar essa profissão. Criada para servir a Lei, parece que os seus supra-sumos são aqueles que conseguem servir-se dela.

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

"EU QUE SOU GORDO, PREGUIÇOSO E DESAJEITADO", podia muito bem ser o início de um poema...

Um abraço ao gordo, ao desajeitado e sobretudo ao preguiçoso : -)

Miguel

pedroludgero disse...

No meu caso, a poesia está um pouco ligada às três coisas__