terça-feira, setembro 11, 2007

O que eu posso dizer

Eis o que eu posso dizer sobre o caso-caos que se formou em torno do desaparecimento de uma criança britânica no Algarve:

1. Seja qual for o resultado da investigação policial, a comunicação social tem de fazer um sério exame à sua própria fragilidade. O problema não é haver jornais que se portam bem e outros que se portam mal (o que sempre acontece). O problema é que, caso ainda houvesse algumas dúvidas sobre isso, a comunicação social se torna facilmente presa da mais confrangedora irracionalidade. Não é demagogia dizer que há milhares de crianças desaparecidas por ano que não têm direito a uma nota de rodapé na imprensa. Não é cinismo assumir que, para o sucesso do caso, muito contribuíram a nacionalidade, a raça, a posição social e o estatuto profissional da família em questão. Mas não se poderá imputar a responsabilidade do fenómeno de histeria aos pais de Madeleine porque, se eles estiverem isentos de qualquer responsabilidade no desaparecimento da sua filha, o facto é que terão agido por desespero e não poderiam ter previsto que o monstro mediático se voltaria contra eles mesmos.

Assim como foi descabida a campanha mundial em busca da menina (muitas vezes ouvi dizer, em particular, que isso pode ter sido meio caminho andado para o assassinato da vítima - como disse ontem, no programa Prós e Contras, um elemento da polícia judiciária), agora é descabida a condenação sem fundamentos do casal McCann. Não podemos declará-los culpados (se o não forem, estarão a passar por uma experiência traumática indescritível), mas também não podemos defender cegamente a sua inocência (pois se forem culpados, o seu crime terá uma gravidade inédita e de um horror inesgotável). Eu não conheço o casal de lado nenhum, e não o pretendo conhecer devido a esta perversa celebridade. Por isso, estou calado, e espero que os órgãos competentes se pronunciem sobre o assunto (terrível, terrível, era não se chegar a conclusão nenhuma).

A comunicação social terá então de reflectir sobre a sua fragilidade (isso é mais importante do que um enxame de leis reguladoras), sobre o seu critério de notícia, sobre a sua estética (de que ninguém fala, mas que é essencial à afectação emocional da opinião pública), sobre a sua responsabilidade democrática profunda.

2. Alguns ingleses estão a demonstrar uma inequívoca sobranceria perante Portugal. É preciso assumi-lo com todas as letras. Mas os portugueses fariam algo de semelhante se uma família do seu país perdesse uma criança em Timor. Não estou com isto a comparar a distância de progresso entre Timor e Portugal com a que existe entre Portugal e o Reino Unido. Estou a dizer que essa sobranceria é, infelizmente, habitual.

Agora, eu vivo num país que se assemelha à poesia de O'Neill e às crónicas de Pulido Valente mais do que eu gostaria. Em certa medida, somos o retrato de algum falhanço. Mas daí a supor que a polícia portuguesa é mercenária ao ponto de, por razões de eventual incompetência, querer destruir a vida de dois seres em sofrimento, vai um passo estupidamente grande. Ou esses britânicos (com toda a certeza há gente sensata no Reino Unido...) têm uma ingenuidade que não é aceitável numa nação que se supõe tão desenvolvida, ou a sua sobranceria passou dos limites razoáveis.

De resto, sobre a actividade da polícia eu não opino. Não sei o que se passa. Mesmo que o soubesse, não o saberia avaliar. Se há alguma desconfiança sobre a competência da instituição, o Estado terá de proceder a um inquérito relevante. Mas não me parece que o problema esteja aqui.

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