quarta-feira, setembro 19, 2007

Nota "Hamlet"

Podemos entender o famoso texto dramático de Shakespeare como um estudo sofisticado sobre a precisão.

Quando o grupo de teatro contratado pelo transtornado príncipe representa a sua peça, a estocada intelectual sobre o rei usurpador é certeira e eficaz (ao ponto dos artistas serem impedidos de continuarem a récita). O espírito pode ser, de facto, uma arma de precisão.

No entanto, no âmbito da vida material, o resultado da acção física é sempre imprevisível e irónico. A profusão de mortes (mais ou menos acidentais, mas quase todas gratuitas) que o enredo oferece, a lúcida hesitação de Hamlet, os feitiços que se viram contra os seus feiticeiros, os dramas (co)laterais: tudo isso confirma a tragédia que a acção política (enquanto manifestação de violência) sempre tende a produzir. A loucura hamletiana é a própria angústia causada pelo intervalo entre a evidência mental e a dispersão real (que se entre-contaminam até o indivíduo já não saber escolher entre ser e não-ser).

Historicamente, parece que foi apenas a esquerda política que, ingénua, nunca conseguiu perceber isto. Mas o que dizer de todos aqueles que acreditaram mesmo que a guerra no Iraque se ia desenrolar como um processo cirúrgico?

A realidade não se simplifica nem perante os monstruosos instrumentos de destruição.

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