quarta-feira, setembro 19, 2007

No escrínio 30

Poema de Wallace Stevens, traduzido por mim:


Tatuagem

A luz é como a aranha.
Rasteja sobre a água.
Rasteja sobre as bordas da neve.
Rasteja sob as tuas pálpebras
E estende aí as suas teias -
Suas duas teias.

As teias dos teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos de ti
Como a vigas ou à relva.

Há filamentos dos teus olhos
Sobre a face da água
E nas bordas da neve.



A intuição poética da tatuagem que um raio de luz poderia provocar num rosto por um processo de reflexão física (embatendo nos olhos que o devolveriam ao mundo como se espelhos fossem) deriva da memória afectiva de duas agulhas bem reais: aquela que permite que uma aranha morda com sucesso garantido, e a outra que conhecemos da paciência têxtil.

A metáfora parece ser aqui a agulha que, conduzindo o fio de luz (que encontra a sua formulação-síntese na bela palavra filamento), cose as coisas do mundo umas às outras. Pois se o filamento borda com luz os olhos da pessoa adorada, quando encontra de novo a água e a neve já leva em si a presença (ausente) desse olhar. Poderíamos supor que, uma vez iniciada esta tecelagem, a teia lírica se poderia propalar pelo universo todo em perseguição de uma épica da imanência. A poesia é afinal a crença nesses fios que, um pouco mais densos que as linhas de constelação mas não tão grosseiros como as cordas que nos podem restringir a liberdade, ligam os entes entre si.

Mas Stevens não abriu caminho a esse tipo de infinito. Sempre em busca da sua peculiar ficção suprema, ele escreve um corpo onde o tempo parece ter parado. Não é só a passagem da água a neve que o indicia. Afinal, em que corpo ágil e vital haveria disponibilidade para a formação de teias de aranha?

E no entanto, essas teias luminosas estão atadas à carne e aos ossos com uma fragilidade que denuncia o quão insegura e perecível é a emoção sensual. Tudo o que é definitivo, é-o por uma unha negra. O que aconteceria se, de repente, a beleza corpórea se desatasse do corpo?

1 comentário:

dora disse...

um piscar de olhos como lugar
( textos - tattoo, o teu que o lê - cumprindo-o )