sábado, setembro 15, 2007

Crónica da noite

Nocturno 2
(também conhecido como Suite Hipostila)



Cada noite define-se pelas colunas que a sustentam:

Noite dórica - Chegada a casa após as dores de coito, a mulher tira a base do rosto. Andou toda a noite na universidade da vida, em regime de trabalhadora-estudada. Está mais sóbria: não tem tocado nem numa gota de Jack the Ripper. Assim, apesar de se saber antes de Cristo, o tipo de fé que tem na vida não está nem um pouco envelhecido. Quando eu passo em frente da janela da sua casa, ela trauteia que o sol é um filho da puta.

Noite jónica - Não sabem bem o que são iões, mas querem muito partilhá-los durante a noite. Dão duas longas e, já cansados, duas mais breves. Estão a escandir aquilo que, por falta de imaginação, chamaram paixão. Estão a fazê-lo, por isso, em línguas que não são as suas. Espera-se que a arte do beijo vá fazendo com que cada um se traduza no outro de forma cada vez mais simultânea. Mas por enquanto, têm muito corpo para catalisar (digo eu).

Noite bizantina - A cúpula estridente da discoteca ergue-se sobre uma única coluna: a quinta aumentada pela traição que o desejo a si mesmo provoca. Os beijos trocados são subtis e fúteis como todas as questões teleológicas. Eu estou quietinho, como se pertencesse a um mosaico cujo fundo não fosse suficientemente dourado para estar em contraponto com o lugar: a minha alma by night.

Noite coríntia - Por vezes, a noite acantona-se com narrativas. Hélas: reservo essa noite para mim. Quero música cigana como banda sonora, quero cantar e dançar como uma mulher de Cabo Verde, uma lua lorquiana, muito relento embebido em álcool: tudo o que as passas-do-allgarve permitem. Não pretendo, aliás, distinguir os sonhos dos pesadelos. Nunca aprendi as regras estílisticas da execução dos diferentes trilos estelares.

Noite romana - A vida é uma viagem a Itália cujos caminhos todos vão dar à morte. Não pode o Homem descalçar esta bota sob pena de andar vergado e sem equilíbrio à maneira de Pisa. E de qualquer modo, cada um de nós tem direito ao seu calcanhar-de-aquiles para acabar com as dores no cotovelo. Dizem os cristãos, atletas paralímpicos, que convém estar bem vertebrado no encontro com a Noite (ou pelo menos levar mais do que um óbolo). Ao que eu respondo que os discos da minha coluna só sabem lançar canções.

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