quarta-feira, setembro 12, 2007

Bizantinice

Alberto Caeiro, num momento espinozano, escreve o seguinte:

Então os meus versos têm sentido e o universo não há-de ter sentido?
Em que geometria é que a parte excede o todo?

Em que biologia é que o volume dos órgãos
Tem mais vida que o corpo?

Ora, já que estamos no domínio da argumentação, eu escreveria, usando os próprios motivos caeirianos, o seguinte contra-poema:

Então as flores não têm sentido e o universo há-de ter sentido?
Em que geometria é que a parte excede o todo?

E etc.

É que, na verdade, o universo tem sentido e o universo não tem sentido. Tem sentido para a parte humana que busca sentido, não tem sentido para a parte humana que o dispensa. E o todo está contido, plenamente, em cada parte.

Este estado de coisas copulativo só nos aflige porque a nossa linguagem ainda está demasiado próxima da lógica.

1 comentário:

daniel disse...

Ora nem mais, meu caro. Ou como diria o nosso Agostinho da Silva, está na altura de termos todas as certezas casadas com todas as dúvidas... e vamos a ver que descendência isso dá!

um abraço