domingo, setembro 02, 2007

Babel

No poema VII de "O guardador de rebanhos" (edição da Assírio e Alvim), Alberto Caeiro diz:

"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
(...)"


Na sua defesa da ruralidade (como modo de vida que permite um uso mais apropriado dos sentidos), o heterónimo de Pessoa enuncia, portanto, um critério celeste. A nossa riqueza depende da quantidade de céu que os nossos olhos conseguem abarcar.

Mas logo no poema seguinte, ao falar da criança Jesus, ele diz:

"(...) Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

(...)"


Pessoa fora educado sob a intensidade da língua inglesa. Por isso, talvez não seja um delírio pensar que a génese deste heterónimo esteve parcialmente dependente da diferença bem precisa que em inglês se estabelece entre sky e heaven.

Em português, o céu é demasiado ambíguo (só através da definição se consegue demarcar as suas duas possibilidades). Ora, na opinião de Ricardo Reis, Caeiro pretende reconstruir o paganismo a partir da sua latência degenerada no cristianismo. Precisa de libertar o céu do céu. Assim sendo, e ao contrário do que pensava o heterónimo das Odes, a aparição da figura de Cristo (ou de Santa Bárbara) na obra não-religiosa de Caeiro não é um erro, mas uma imposição da língua portuguesa.

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