quinta-feira, setembro 27, 2007

No satisfaction

Ser poeta não é ser mais alto
(ter mais gigas de gigante).


É fazer uma escada de estrelas
E ter pena de ela não ser rolante.

Acha que sabe mais do que uma criança de 5 anos?

Não preciso de ser pedopsiquiatra. Basta-me a memória para eu pressentir a dor imensa que deve surgir com uma mudança de figuras parentais aos cinco anos de idade.

No entanto, a Lei é pura e dura (e Sed-lex parece mesmo o nome de um medicamento que nos faz morrer da cura): o espermatozóide (ainda que renitente e tardio) é afinal coisa mais válida que a saúde mental de um inocente.

Só espero que, da próxima vez que se discuta a possibilidade de adopção por casais homossexuais, o Direito não volte a dizer: vinde a mim as criancinhas.

terça-feira, setembro 25, 2007

Partilha 22

(Este texto nada inocente saiu-me demasiado o'neilliano, e por isso não o considero muito-meu. Mas como me parece divertido, deixo-o aqui transcrito)



iPOD
"to be or not to be"
Shakespeare

não não estou
estou fechado para obras
obras aliás de santa engrácia

não me venham com manobras
de diversão
que eu não me vou desta auscultação
sem a graça de uma cantiga

como todo o poeta
só tenho garganta
desprezo como mero ginger ale
a questão da biografia

'tou é do panteão?
ah
do consultório do doutor pantaleão
hélas que me esquecia da consulta
de otorrinolaringologia

domingo, setembro 23, 2007

Peter Pã (confissão 24)

Cada cineasta submete os seus sonhos ao julgamento do público. Apesar da fragilidade da narrativa de "O capacete dourado" (não só a história já tem algumas barbas, mas também os pormenores não foram bem aparados), eu assumo que prefiro, de longe, o sonho de Jorge Cramez aos onirismos de Peter Jackson ou Quentin Tarantino.

Cramez filma o amor adolescente como sendo a vertigem que, precisamente, consegue interromper a narração. Tem, por isso, toda a lógica que ele tenha evitado o final dramático do argumento que lhe ofereceram e tenha levado o seu par amoroso a um estado de mera suspensão. Descobrem a energia que os acompanha no fogo, na água, nas estrelas, na dança ou na velocidade das motorizadas, e é só esse lirismo que o seu cinema pretende oferecer. Pois o que, de facto, lhes vai acontecer, já pertence à rudeza aleatória da vida.

Infelizmente, eu não conheci (nem conheço) o tipo de adolescência que este filme revela. Contemplo jovens nobremente ocupados das sete da manhã às dez da noite, conformados à educação parental e às evidências do consumo, incapazes de transgressão ou descontrolo. São apenas inseguros, e bonitos por assim o serem.

Aproveito assim para revelar uma das frases mais graves que já alguém me disse. Um colega meu do passado que, no princípio da maioridade, era um insuportável e ortodoxo marxista (devidamente rodeado por um ambiente sinistro, pois contava com orgulho que a sua mãe festejara com alegria o 11 de Setembro), disse-me uma vez que achava que ter cinquenta anos e ser comunista era uma prova de profunda imaturidade. Então, eu pergunto: porquê? Para quê essas ilusões todas, se tudo isso é uma comichão passageira e inconsequente? Se nada se mantém da aceleração juvenil, então ela parece-me profundamente inútil.

Com bravura, Jorge Cramez manteve este filme dentro de si.

E é por isso que, contra as críticas que os meus próximos me fazem, eu faço esforço para não crescer muito. Tento manter-me o mais leal possível ao que eu penso ser a minha natureza.

Partilha 21

(Para apagar a sensação de desconforto orgânico do post anterior, um poema da colectânea que estou a escrever presentemente):



ser de cedilha

uma pipa (onde se guarda
................. ......cachoeira):
pode esparramar-se

derramar-se

e assim se armar caracol


o muro bebe-o

como se em mel amolecesse

por mero sinal de lágrima

julga a couve encarecer

e o sol

que só por causa do arrebol põe rímel

pega a sua própria queda pelos cornos


eles aí vão

correndo a mil calómetros à hora

voltando aos seus lugar's todas as coisas

(mesmo eles não morrendo

mas encostando às boxes)



[Nota: "calómetro" refere-se a uma (suposta) medida de beleza.]

Post higiénico

Subscrevo o seguinte parágrafo escrito por Pedro Mexia no PÚBLICO de 22 de Setembro:


"Em 1961, o artista conceptual italiano Piero Manzoni (1933-1963) levou a escatologia moderna ao extremo, vendendo noventa latas contendo cada uma 30 gramas dos seus excrementos. A produção (digamos) chamava-se Merda d'Artista. Eis uma ajustada junção dos sentidos denotativo e conotativo; não só aquilo é a merda do artista, como configura um artista de merda: aquele que vende a sua própria merda".


Não vou desenvolver a questão, nem sequer dar-me ao luxo da elegante ambiguidade do cronista: afinal, este é um assunto de merda. Gostaria apenas de perguntar ao artista (que, infelizmente, a morte já saneou) qual a intimidade da sua relação com o excremento, já que eu, com certeza menos sofisticado, apenas lhe dou atenção quando preciso de o tirar do ânus.

Uma das minhas cenas favoritas do cinema cómico recente surge no filme "Querido diário", quando Nanni Moretti se dirige ao leito de morte de um crítico de cinema e lhe lê o complexo (e absurdo) texto de elogio que ele tinha escrito a propósito de um filme qualquer sobre um serial killer. O paciente torce-se de agonia: sabe que o Inferno o aguarda. Quantas vezes penso nessa cena a propósito de curadores, comissários, e toda essa brava fauna que as consegue tirar do cu com um gancho.

quarta-feira, setembro 19, 2007

No escrínio 30

Poema de Wallace Stevens, traduzido por mim:


Tatuagem

A luz é como a aranha.
Rasteja sobre a água.
Rasteja sobre as bordas da neve.
Rasteja sob as tuas pálpebras
E estende aí as suas teias -
Suas duas teias.

As teias dos teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos de ti
Como a vigas ou à relva.

Há filamentos dos teus olhos
Sobre a face da água
E nas bordas da neve.



A intuição poética da tatuagem que um raio de luz poderia provocar num rosto por um processo de reflexão física (embatendo nos olhos que o devolveriam ao mundo como se espelhos fossem) deriva da memória afectiva de duas agulhas bem reais: aquela que permite que uma aranha morda com sucesso garantido, e a outra que conhecemos da paciência têxtil.

A metáfora parece ser aqui a agulha que, conduzindo o fio de luz (que encontra a sua formulação-síntese na bela palavra filamento), cose as coisas do mundo umas às outras. Pois se o filamento borda com luz os olhos da pessoa adorada, quando encontra de novo a água e a neve já leva em si a presença (ausente) desse olhar. Poderíamos supor que, uma vez iniciada esta tecelagem, a teia lírica se poderia propalar pelo universo todo em perseguição de uma épica da imanência. A poesia é afinal a crença nesses fios que, um pouco mais densos que as linhas de constelação mas não tão grosseiros como as cordas que nos podem restringir a liberdade, ligam os entes entre si.

Mas Stevens não abriu caminho a esse tipo de infinito. Sempre em busca da sua peculiar ficção suprema, ele escreve um corpo onde o tempo parece ter parado. Não é só a passagem da água a neve que o indicia. Afinal, em que corpo ágil e vital haveria disponibilidade para a formação de teias de aranha?

E no entanto, essas teias luminosas estão atadas à carne e aos ossos com uma fragilidade que denuncia o quão insegura e perecível é a emoção sensual. Tudo o que é definitivo, é-o por uma unha negra. O que aconteceria se, de repente, a beleza corpórea se desatasse do corpo?

No original

Tattoo


The light is like a spider.
It crawls over the water.
It crawls over the edges of the snow.
It crawls under your eyelids
And spreads its webs there -
Its two webs.

The webs of your eyes
Are fastened
To the flesh and bones of you
As to rafters or grass.

There are filaments of your eyes
On the surface of the water
And in the edges of the snow.


Wallace Stevens

Nota "Hamlet"

Podemos entender o famoso texto dramático de Shakespeare como um estudo sofisticado sobre a precisão.

Quando o grupo de teatro contratado pelo transtornado príncipe representa a sua peça, a estocada intelectual sobre o rei usurpador é certeira e eficaz (ao ponto dos artistas serem impedidos de continuarem a récita). O espírito pode ser, de facto, uma arma de precisão.

No entanto, no âmbito da vida material, o resultado da acção física é sempre imprevisível e irónico. A profusão de mortes (mais ou menos acidentais, mas quase todas gratuitas) que o enredo oferece, a lúcida hesitação de Hamlet, os feitiços que se viram contra os seus feiticeiros, os dramas (co)laterais: tudo isso confirma a tragédia que a acção política (enquanto manifestação de violência) sempre tende a produzir. A loucura hamletiana é a própria angústia causada pelo intervalo entre a evidência mental e a dispersão real (que se entre-contaminam até o indivíduo já não saber escolher entre ser e não-ser).

Historicamente, parece que foi apenas a esquerda política que, ingénua, nunca conseguiu perceber isto. Mas o que dizer de todos aqueles que acreditaram mesmo que a guerra no Iraque se ia desenrolar como um processo cirúrgico?

A realidade não se simplifica nem perante os monstruosos instrumentos de destruição.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Dicionário 14

Quando se levanta uma onda de críticas, o criticado deve preparar-se para surfar.

sábado, setembro 15, 2007

Crónica da noite

Nocturno 2
(também conhecido como Suite Hipostila)



Cada noite define-se pelas colunas que a sustentam:

Noite dórica - Chegada a casa após as dores de coito, a mulher tira a base do rosto. Andou toda a noite na universidade da vida, em regime de trabalhadora-estudada. Está mais sóbria: não tem tocado nem numa gota de Jack the Ripper. Assim, apesar de se saber antes de Cristo, o tipo de fé que tem na vida não está nem um pouco envelhecido. Quando eu passo em frente da janela da sua casa, ela trauteia que o sol é um filho da puta.

Noite jónica - Não sabem bem o que são iões, mas querem muito partilhá-los durante a noite. Dão duas longas e, já cansados, duas mais breves. Estão a escandir aquilo que, por falta de imaginação, chamaram paixão. Estão a fazê-lo, por isso, em línguas que não são as suas. Espera-se que a arte do beijo vá fazendo com que cada um se traduza no outro de forma cada vez mais simultânea. Mas por enquanto, têm muito corpo para catalisar (digo eu).

Noite bizantina - A cúpula estridente da discoteca ergue-se sobre uma única coluna: a quinta aumentada pela traição que o desejo a si mesmo provoca. Os beijos trocados são subtis e fúteis como todas as questões teleológicas. Eu estou quietinho, como se pertencesse a um mosaico cujo fundo não fosse suficientemente dourado para estar em contraponto com o lugar: a minha alma by night.

Noite coríntia - Por vezes, a noite acantona-se com narrativas. Hélas: reservo essa noite para mim. Quero música cigana como banda sonora, quero cantar e dançar como uma mulher de Cabo Verde, uma lua lorquiana, muito relento embebido em álcool: tudo o que as passas-do-allgarve permitem. Não pretendo, aliás, distinguir os sonhos dos pesadelos. Nunca aprendi as regras estílisticas da execução dos diferentes trilos estelares.

Noite romana - A vida é uma viagem a Itália cujos caminhos todos vão dar à morte. Não pode o Homem descalçar esta bota sob pena de andar vergado e sem equilíbrio à maneira de Pisa. E de qualquer modo, cada um de nós tem direito ao seu calcanhar-de-aquiles para acabar com as dores no cotovelo. Dizem os cristãos, atletas paralímpicos, que convém estar bem vertebrado no encontro com a Noite (ou pelo menos levar mais do que um óbolo). Ao que eu respondo que os discos da minha coluna só sabem lançar canções.

Termos

Utilizo a palavra "Crónica" com o mesmo sentido de decadência inexacta com que na música se usa, por exemplo, o conceito de "Prelúdio". O prelúdio começou por ser uma pequena peça destinada a constituir a introdução de uma outra obra mais relevante. No entanto, ao longo da história da música, o conceito foi perdendo esse sentido, e acabou por ser usado com uma liberdade difícil de classificar. Que semelhança existe entre um prelúdio de Bach e um prelúdio de Debussy?

Pretendo, portanto, abrir um bocadinho o espaço do género crónica.

Teatro não (almo)fadado

"The pillowman", de Martin McDonagh, é uma reflexão poderosa sobre o conceito de fim (não apenas no sentido de "morte").

O enredo principal avança por surpresas narrativas (a reviravolta, um prazer rápido e incisivo, é quase uma instituição entre os anglo-saxónicos). No entanto, cada surpresa dirige a atenção do espectador para uma dimensão específica da responsabilidade.

Quando sabemos que o rapaz atrasado cometeu crimes porque se inspirou nas histórias doentias que o seu irmão escrevia, somos obrigados a reflectir sobre a responsabilidade do artista (um dos principais produtores de imaginário na sociedade). Quando a expectativa gerada em torno de um terceiro infanticídio é quebrada com um desenlace tão irreal que parece burlesco (a menina que se julgava violentada estava afinal bem viva, inocentemente rodeada por animais), a responsabilidade em causa passa a ser a do homem por trás do artista (o escritor é tão obcecado que é capaz da farsa mais imoral só para garantir a imortalidade das suas obras). Por fim, quando os escritos não são queimados devido à fraqueza generosa de um polícia, só porque isso está mais em consonância com a perfeição da narrativa, aí é a própria narrativa que se oferece ao foco da análise. Afinal, educados que fomos para que uma história tenha uma moral, ficamos inquietos quando a perfeição de uma narrativa equivale a uma ambiguidade ética insuportável (note-se que o escritor fantasia mesmo que o irmão aceitou ter uma vida horrível só para que os seus escritos pudessem surgir).

Se o fim que o Homem Almofada traz (a morte deus ex-machina antes da infelicidade) está errado porque, se fosse aplicado com rigor abrangente, a Humanidade inteira era condenada à eutanásia, o fim impecável da narrativa (a lógica de uma ficção) impede os homens de viverem bem.

Não conheço o restante trabalho do dramaturgo, mas parece-me que, depois disto, ou ele mina o seu próprio talento para a narrativa, ou a abandona por completo.

Só não percebo porque tínhamos de estar sempre a rir durante um espectáculo que abordava assuntos tão insuportáveis. Será que o autor pretende que o seu texto derrame um humor negro pouco responsável? O encenador foi pouco sofisticado com o tom? O público estava descontrolado?

Uma palavra para os quatro actores: para quem acha que os intérpretes portugueses são medíocres (e, de facto, quem só os vê em telenovelas não pode deixar de pensar assim), basta ver o exímio trabalho de Nuno Lopes (sempre muito físico), Gonçalo Waddington (perfeito de cobardia patológica), Marco d'Almeida e João Pedro Vaz, para mudar de opinião.

Enlamear-se

Parece que o Partido Comunista se fez difícil para dar algum feed-back à visita do Dalai Lama.

Há certamente um sub-texto (longínquo, diga-se) de nobreza que tem garantido a sobrevivência desse partido historicamente relevante. Agora, a partir do momento em que um partido supostamente idealista alinha com as pressões de um estado como a China, só porque esse estado se diz comunista, mas onde os direitos humanos são constantemente postos em causa e, pior ainda, onde a opressão real sobre os trabalhadores é flagrante, então esse partido começa a perder a razão de ainda existir.

Nem sequer percebo como é que uma utopia se pode tornar instituição.

Uma máxima de Confuso

"Desconfia sempre do pensador que não for capaz de te dar um exemplo concreto."

quarta-feira, setembro 12, 2007

Longe do Conservatório

Jordi Savall é um intérprete que não tem receio de ser autor. Mais do que um historiador, ele é um criador de Passado (sempre assumiu que o seu trabalho de arqueologia se baseava na incerteza, o que em nada lesa o espírito de rigor e a investigação meticulosa).

Coordena ousados intérpretes que experimentam mais instrumentos do que aqueles que foram forçados a aprender, que improvisam, que conseguem empatia com o público, enfim: tratam com gosto e imaginação um material que se arriscava a ficar esquecido ou interpretativamente mal-tratado.

Trabalha com a mulher (ela foi a Música na sua versão do "Orfeo" de Monteverdi), com a filha Ariana (e penso que Ferran Savall também será familiar), com cúmplices parciais (como Ton Koopman), com uma equipa habituada ao convívio criativo. Ao contrário do que é habitual nos meandros da música clássica (ora a competência asséptica, ora a prática da capelinha), o maestro não separa a sua rede afectiva da sua busca intelectual.

Publicamente

Esperando não cair num namedropping de elogio fácil, uma mera declaração de solidariedade:


Entre outros jornalistas e cronistas que escrevem no jornal O PÚBLICO, sigo com particular atenção o trabalho de Alexandra Lucas Coelho (uma curiosidade intelectual que me toca), João Bonifácio (que fala de música popular como de toda a música se deveria falar), Rui Tavares (apesar de eu não ser tão convictamente de esquerda, concordo com ele demasiadas vezes para não ser de esquerda), José Vítor Malheiros (intervenções relevantes, justas e muito bem escritas), Luís Miguel Oliveira (diversidade no gosto, militância informada), Pedro Mexia (inteligência ideológica). Estou agora a acompanhar a actividade de Gustavo Rubim (exigência académica segura), Francisco Luís Parreira (imensa cultura agilmente articulada), e José Riço Direitinho (bastante entusiasmo por uma dimensão da literatura que pouco me entusiasma).

Tenho é pena que o jornal tenha perdido o contacto com Jorge Silva Melo, João Barrento, Pedro Sena-Lino ou Desidério Murcho.

Bizantinice

Alberto Caeiro, num momento espinozano, escreve o seguinte:

Então os meus versos têm sentido e o universo não há-de ter sentido?
Em que geometria é que a parte excede o todo?

Em que biologia é que o volume dos órgãos
Tem mais vida que o corpo?

Ora, já que estamos no domínio da argumentação, eu escreveria, usando os próprios motivos caeirianos, o seguinte contra-poema:

Então as flores não têm sentido e o universo há-de ter sentido?
Em que geometria é que a parte excede o todo?

E etc.

É que, na verdade, o universo tem sentido e o universo não tem sentido. Tem sentido para a parte humana que busca sentido, não tem sentido para a parte humana que o dispensa. E o todo está contido, plenamente, em cada parte.

Este estado de coisas copulativo só nos aflige porque a nossa linguagem ainda está demasiado próxima da lógica.

Aquela com quem um tal foi casado



Faleceu a actriz Jane Wyman. Ao contrário do que li hoje na imprensa, eu lembrá-la-ei sempre pela sua participação no belíssimo filme "All that heaven allows", de Douglas Sirk. Só por nos ter deixado um tão justo pedaço de emoção, eu espero que, no céu, a senhora tenha tudo o que este permita.

Adendas

1. Adenda a Ofícios duros de roer (momento naif) - Eu não tenho propriamente aversão aos advogados. Sou sincero: tenho mais aversão ao momento do meu passado em que me queriam impor tal ofício.

Mas isso não impede que, enquanto cidadão, eu tenha algumas inquietações - certamente ingénuas. Pois, se nós fazemos parte de uma civilização que acredita (e parece-me bem) que a Justiça não é só um assunto do indivíduo para consigo mesmo, é preciso que as actividades que a põem em prática não provoquem a sensação de logro no cidadão comum. Uma das questões mais incómodas no exercício do Direito tem a ver com o facto de um indivíduo responsável por um ilícito (penal, civil, etc.) poder ser desresponsabilizado em tribunal: em bom português, poder safar-se. Ora isso coloca em causa a motivação profunda que leva a que todos concordemos que qualquer arguido tem direito a uma defesa jurídica.

Perdoem-me a singeleza intelectual. Quando se conhece que um indivíduo praticou um crime, havendo provas evidentes e suficientes sobre isso, por que razão há-de um advogado ser capaz de accionar um conjunto de subterfúgios para o livrar da pena correcta? A defesa do criminoso sobre o qual não recaem dúvidas sobre o seu crime talvez devesse consistir em coisas tão concretas e úteis como o levantamento das atenuantes; a reflexão sobre o tipo, peso, duração de pena a aplicar; a construção de um programa efectivo (e não meramente rotineiro) de tentativa de reintegração social; a defesa da integridade física e psíquica daquele indivíduo durante o cumprimento da pena (é essa nobreza que nos permite, enquanto sociedade, julgar), etc. Ou seja, o advogado estaria impedido de evitar a aplicação da Justiça, antes defenderia o seu cliente com a preocupação de que este fosse submetido à Justiça mais correcta e efectiva possível.

Isto talvez fizesse diminuir o instinto boçal de justiça-pelas-próprias-mãos de que algumas sociedades ainda padecem (as pessoas veriam que a Justiça era uma realidade, sempre imperfeita, mas uma realidade), diminuiria a frustração das Polícias que constantemente trabalham em vão, e talvez até fosse possível reinserir alguns criminosos na sociedade (falo de Direito Penal, que é o que mais nos agita). E os advogados teriam a chance de ser elementos construtivos na dinâmica colectiva.

Caso contrário, a sensação que fica é a de uma farsa.

Não estou a sonhar com um mundo ideal. Estou a tactear um mundo menos frustrante e menos absurdo.



2. Adenda a O que posso dizer - Durante algum tempo, acreditei que o jornalismo deveria ser sensacionalista. Ou seja, não deveria ser imparcial de modo a poder estar sempre a pôr em causa o poder.

Hoje, já não penso assim. Parece-me que o jornalista deve ser, acima de tudo, um transmissor de factos. E deve insistir nos factos que os poderes políticos e económicos querem ocultar das populações (se bem que isso lhes possa trazer dissabores fatais), e naqueles que precisam de uma articulação profundamente complexa. Exemplo concreto: um repórter poderia tomar uma medida governamental para a educação como ponto de partida, e investigar no terreno, com rigor absoluto, em que é que essa medida, ao longo de vários anos, se traduziu. O que correu bem, o que correu mal, objectivos atingidos, perversidades encontradas, etc. Claro que algum jornalismo de investigação fará isso, mas não é esse jornalismo que chega ao cidadão comum. Acredito que é possível apresentar a complexidade da realidade de uma forma sucinta, clara, empática, sem simplificar nem ocultar absolutamente nada. E com uma estética que nem seja demasiado exigente (não é necessário ser o Tarkovsky para fazer notícias) nem aborrecida ou desinteressante.

E a partir daí, o cidadão poderia tomar as suas posições de cidadania com o mínimo de responsabilidade e liberdade.

O que não invalida o jornalismo de causas (se bem que a causa tenha de ser escolhida com inteligência ética, e o processo deva também consistir na transmissão de informação) nem o espaço dado ao comentário e à opinião (que não serve para nos telecomandar, mas para nos dar instrumentos para construirmos a nossa própria independência crítica).

terça-feira, setembro 11, 2007

O que eu posso dizer

Eis o que eu posso dizer sobre o caso-caos que se formou em torno do desaparecimento de uma criança britânica no Algarve:

1. Seja qual for o resultado da investigação policial, a comunicação social tem de fazer um sério exame à sua própria fragilidade. O problema não é haver jornais que se portam bem e outros que se portam mal (o que sempre acontece). O problema é que, caso ainda houvesse algumas dúvidas sobre isso, a comunicação social se torna facilmente presa da mais confrangedora irracionalidade. Não é demagogia dizer que há milhares de crianças desaparecidas por ano que não têm direito a uma nota de rodapé na imprensa. Não é cinismo assumir que, para o sucesso do caso, muito contribuíram a nacionalidade, a raça, a posição social e o estatuto profissional da família em questão. Mas não se poderá imputar a responsabilidade do fenómeno de histeria aos pais de Madeleine porque, se eles estiverem isentos de qualquer responsabilidade no desaparecimento da sua filha, o facto é que terão agido por desespero e não poderiam ter previsto que o monstro mediático se voltaria contra eles mesmos.

Assim como foi descabida a campanha mundial em busca da menina (muitas vezes ouvi dizer, em particular, que isso pode ter sido meio caminho andado para o assassinato da vítima - como disse ontem, no programa Prós e Contras, um elemento da polícia judiciária), agora é descabida a condenação sem fundamentos do casal McCann. Não podemos declará-los culpados (se o não forem, estarão a passar por uma experiência traumática indescritível), mas também não podemos defender cegamente a sua inocência (pois se forem culpados, o seu crime terá uma gravidade inédita e de um horror inesgotável). Eu não conheço o casal de lado nenhum, e não o pretendo conhecer devido a esta perversa celebridade. Por isso, estou calado, e espero que os órgãos competentes se pronunciem sobre o assunto (terrível, terrível, era não se chegar a conclusão nenhuma).

A comunicação social terá então de reflectir sobre a sua fragilidade (isso é mais importante do que um enxame de leis reguladoras), sobre o seu critério de notícia, sobre a sua estética (de que ninguém fala, mas que é essencial à afectação emocional da opinião pública), sobre a sua responsabilidade democrática profunda.

2. Alguns ingleses estão a demonstrar uma inequívoca sobranceria perante Portugal. É preciso assumi-lo com todas as letras. Mas os portugueses fariam algo de semelhante se uma família do seu país perdesse uma criança em Timor. Não estou com isto a comparar a distância de progresso entre Timor e Portugal com a que existe entre Portugal e o Reino Unido. Estou a dizer que essa sobranceria é, infelizmente, habitual.

Agora, eu vivo num país que se assemelha à poesia de O'Neill e às crónicas de Pulido Valente mais do que eu gostaria. Em certa medida, somos o retrato de algum falhanço. Mas daí a supor que a polícia portuguesa é mercenária ao ponto de, por razões de eventual incompetência, querer destruir a vida de dois seres em sofrimento, vai um passo estupidamente grande. Ou esses britânicos (com toda a certeza há gente sensata no Reino Unido...) têm uma ingenuidade que não é aceitável numa nação que se supõe tão desenvolvida, ou a sua sobranceria passou dos limites razoáveis.

De resto, sobre a actividade da polícia eu não opino. Não sei o que se passa. Mesmo que o soubesse, não o saberia avaliar. Se há alguma desconfiança sobre a competência da instituição, o Estado terá de proceder a um inquérito relevante. Mas não me parece que o problema esteja aqui.

Em breve



(Ainda existirá?)

Ofícios duros de roer

Eu, que sou gordo, preguiçoso e desajeitado, tenho admiração pelas coisas do corpo. Mesmo não gostando de desporto, reconheço que sobre um atleta que chegou ao topo da sua profissão não paira nenhuma dúvida sobre a sua qualidade, sobre a validade da posição atingida (a não ser nos casos pontuais do doping). Ou seja, se o Roger Federer ocupa o primeiro lugar no ranking mundial do ténis, é porque o merece. E sobre esse merecimento, poucas sombras pairarão (é claro que a criança que nem teve direito à alimentação e à vacinação poderia até ter sido um tenista superior, etc.).

No caso do criador artístico (e recuso a figura do artista comercial, porque não sei o que é um tenista comercial nem um advogado comercial), a validade do seu trabalho é medida pelo discurso crítico. Ora, é claro que pode haver autores aclamados que se calhar não o merecem. E vice-versa. Por isso, tão importante quanto a crítica da obra de arte é a crítica do crítico. Pois há casos de submissão infantil ao cânone recebido, mas também há iconoclastias profundamente injustas, há vaidades e orgulhos insuportáveis nos profissionais da crítica, há agendas políticas, concluios de amizade, etc. De qualquer modo, continuamos a acreditar que o tempo acaba por ter uma função reguladora, e que o trigo é efectivamente separado do joio. Se hoje continuamos a amar a obra de Homero, é porque ela também o merece.

Mas quando um advogado (que nunca é comercial porque a sua relação com o Direito é sempre científica) atinge o topo da sua profissão (quinhentos a mil euros ganhos à hora) por, entre outros merecimentos, ter conseguido evitar a extradição de um ditador criminoso, e mesmo tomando em consideração o facto de haver uma imensidão de advogados honestos por esse mundo fora, isso só me demonstra como fiz bem em recusar essa profissão. Criada para servir a Lei, parece que os seus supra-sumos são aqueles que conseguem servir-se dela.

Relatório para um cínico

Maria Gabriela Llansol constrói a sua obra para indagar a possibilidade do humano viver em consciência livre (especialmente no que se refere à sua relação com o Príncipe) e com acesso ao dom poético. O seu silêncio é o oposto do silêncio de Wittgenstein. Llansol defende um silêncio através do qual os seres possam comunicar e onde se pode dar o encontro inesperado do diverso.

No entanto, não é nada seguro que todo o homem tenha intenções de aceder ao dom poético. E muito menos seguro é que alguma vez essa contaminação generosa se venha a dar, ou que até não fosse um estado de coisas contraproducente (mas a Llansol pode ser mais visionária do que eu). Mais do que exprimir com precisão a natureza da espécie humana (que, de qualquer modo, e segundo Ortega y Gasset, é apenas a sua história), a autora exprime a sua própria natureza, a sua inocência enquanto ser vibrante.

O mesmo o fez Dostoievsky em "Crime e Castigo", ao supor que o homem precisa de assumir o seu crime para que o peso da culpa o deixe de atormentar.

Mas o inocente nada tem a ver com o ingénuo. O inocente é aquele que existe em constante disponibilidade para a dimensão de si mesmo que luta contra todo o sofrimento. O ingénuo é apenas o que não sabe nada da vida, é o idiota.

O cínico tem de existir (é uma peça essencial ao mundo). Mas eu só respeito o cínico que conhece a diferença entre a inocência e a ingenuidade.

segunda-feira, setembro 10, 2007

No escrínio 29



Poema pertencente à colectânea "O Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro:





As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha

São translucidamente uma filosofia toda.


Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,

Amigas dos olhos como as cousas,

São aquilo que são

Com uma precisão redondinha e aérea,

E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,

Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.

São como a brisa que passa e mal toca nas flores

E que só sabemos que passa

Porque qualquer cousa se aligeira em nós

E aceita tudo mais nitidamente.



Para sermos justos para com o poeta, deveríamos contemplar estas bolas de sabão como nada mais que elas mesmas. Afinal, se Caeiro não se cansa de assumir o rigoroso artificialismo da sua postura existencial, é também o primeiro a defender que esse artificialismo é um estado mais fácil de atingir do que parece (basta viver no presente sem densidade onde a criança, de algum modo, vive).

No entanto, na medida em que Alberto Caeiro é mera personagem, e que o único direito que a personagem tem é o de ser lida (em sentido amplo), não resistimos a identificar a fabricação das bolas de sabão à criação de poemas. Poemas que não tornam a vida mais obscura (como os textos transcendentes), que não estão para além da vida, antes a revelam através da sua translucidez. Assim, se a vida é sempre lúcida (sempre clara como o ar), o poema deve ser a mera travessia para a lucidez. E assim, a leitura que dele se faça resulta sempre no aligeiramento da percepção do leitor, propondo-lhe um encontro com a clareza.

De qualquer modo, a grande arte poética caeiriana não será tanto este texto, mas aquele que começa com o verso "Deste modo ou daquele modo,".

Neste poema assaz famoso, impressionam-nos dois versos magistrais. Um tem um efeito de comoção imediata ("com uma precisão redondinha e aérea") porque consegue criar uma inesperada harmonia entre a leveza do conteúdo, o tom infantil e um termo derivado do vocabulário técnico-científico (a precisão), revelando assim inesperadas equivalências lúdicas entre a inocência e o rigor.

No entanto, o outro verso é, por si só, uma obra-prima. Quando Caeiro diz que as bolas de sabão "são translucidamente uma filosofia toda", ele consegue formular toda a coerência do seu projecto. Repare-se que Caeiro não diz (é demasiadamente poeta simples) que as bolas são uma anti-filosofia, uma não-filosofia, uma filosofia mutante ou uma filosofia-sem-filosofia. Como o seu intuito é sempre o de receber o real sem o subverter, ele respeita a palavra (e a realidade) filosofia. O que Caeiro faz é introduzir um advérbio longo (e imprevisível) que atrasa o encontro do leitor com a palavra em questão e a faz surgir como uma surpresa desmistificada. Caeiro não altera as bolas de sabão nem altera a filosofia. Altera o modo como uma coisa é a outra, o modo como a equivalência se materializa (conseguindo assim uma metáfora verdadeiramente translúcida).

Caeiro é, portanto, um poeta adverbial (o que não quer dizer que recorra muito a advérbios). Pois como ele pretende simplificar o sujeito conhecedor (não se explora a si mesmo como sugeria Rimbaud) e impedir a complexificação do objecto conhecido (note-se que esta formulação foi escolhida a dedo), todo o seu discurso se afasta desses entes e se concentra em torno da afectação da acção. Ver. Mas ver como?, com que sentimento?, a que velocidade?, com que intensidade?, etc. Esta é, assim, uma poética acima de tudo ética, pois é no próprio processo da poiesis que tudo se joga, de um modo originalíssimo e profundamente inquietante.

E agora podemos redimir-nos da nossa ousadia dos primeiros parágrafos dizendo que "a criação destas bolas de sabão é translucidamente uma arte poética toda".

quinta-feira, setembro 06, 2007

Mente encardida

O trailer do filme britânico "Peeping Tom", de Michael Powell

Outras (porno)grafias

Exposta na Casa de Serralves, a peça "Dirty mind" da artista Luísa Cunha tem uma configuração bastante simples: um estore (apropriadamente encarnado) entreaberto como se uma mão nele tivesse tentado encontrar um espaço para a visão, e uma voz gravada que repete uma lengalenga sem sentido aparente.

Num primeiro momento, a obra apresenta-se como uma figuração do voyeurismo sexual frustrado: pois quando o olho atravessa a abertura do estore (que não deixa de evocar um orifício corporal pronto a ser penetrado) só encontra a parede.

No entanto, há a questão da lengalenga. Se o espectador não vê uma imagem real, são-lhe contudo fornecidas imagens sonoras. Esta evolução em direcção ao diáfano (palavras inscritas na parede como se fossem graffitis invisíveis) entra em acordo com o discurso gravado. "I saw you going in, going down, disappear, getting near, getting out" não me parece um mero nonsense destinado a questionar a postura do observador, mas uma paródia à filosofia, semelhante àquela a que todos por vezes recorremos: "Quem sou eu?, de onde venho?, para onde vou?". Abandonados à rarefacção, in, down, disappear, near, out adquirem uma ressonância incómoda.

Por outras palavras, a verdadeira sujidade da mente é a sua vocação metafísica. E assim a peça ganha toda a sua lógica: a corrupção semântica que as palavras (o logos) emprestam à nossa relação com o mundo colide contra a barreira da matéria imperscrutável. O pensamento abre uma janela para lado nenhum.

Apesar de não concordar muito com este ponto de vista, o achado criativo de Luísa Cunha parece-me notável.

Adenda a "No escrínio 28"

Como complemento do que disse (aqui) sobre o poema "O imperador dos gelados", é preciso referir que esse texto evidencia uma certa indecência erótica (essencial ao seu sentido profundo). Stevens nem sequer foi muito elegante ou original: pois a que se refere ele quando fala de um homem possante enrolador de grandes charutos? E que raio de natas (ou coalhadas) são estas que ele está a bater?


Nota: no meu blogue do myspace, postei uma tradução minha deste poema.

Infausta olha para Bach

"(...) Sem querer, o seu olhar cruzara-se com Johann e girara para dentro do dele, e o seu pensamento iniciou uma espécie de sonhatina, que é uma forma musical algo parecida com o pequeno sonho, ligeiro e generoso, composto no coração de um, e tocado no coração de outro____________ (...)"


Maria Gabriela Llansol

quarta-feira, setembro 05, 2007

terça-feira, setembro 04, 2007

Partilha 20

o ofício de envelhecer



ouro
tártaro e paraíso
o riso
que define a boca


prata
apesar de cair morta
a lágrima não caia
o rosto


bronze
não será púrpura
a pedra guar-
dada no rim


ferro
por vezes
os ossos descarrilam
antes da última estação


sem idade
1...4 - ..05
o tempo comeu
pedaços da lápide

Partilha 19

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um micro-conto de Veneza.)




Pensar é o mesmo que dar cubos de açúcar à realidade.

Espinosa sabia-o. Mas o seu pensamento ainda não estava em ponto, e por isso, muitas das coisas que ele, de facto, sabia, não sabia que, no fundo, as sabia.

Vivia em Veneza porque a si mesmo se proscrevera da imperfeição fatal. Bastava-lhe dar um pequeno passeio pela cidade, observando os habitantes nas suas gôndolas morais, para que a humanidade lhe parecesse clara como a água. Ali se vivia de modo diferente: há muito que os venezianos tentavam domar o seu pequeno mundo, derretendo-o progressivamente com a substância química de Deus. Era uma Cidade.

O filósofo vivia atormentado com um problema: não sabia que nome dar àquela rara alegria que alguém pode sentir com o bem de outra pessoa. Como era subtil, tinha a certeza de que este não era um dilema linguístico, mas uma perplexidade do real. Ou porque tal alegria só existia em hipótese, ou porque se exprimia na vida de um modo tão subentendido, tão oblíquo, que seria preciso recorrer a uma língua mágica para encontrar a palavra desejada. Ora, Espinosa só acreditava na Razão.

Naquele dia, o almoço, mais excessivo do que desejaria, tinha-o deixado ensonado. E se os homens despertos só se exprimem por utilidades, e aqueles que dormem só sabem sofrer absurdos, o homem ensonado é o único que sabe conjugar o pensamento com o real à maneira de um geómetra divino. Aliás, dizia-se, em Veneza, que a soma dos três ângulos da vigília era sempre igual à soma dos dois ângulos da rectidão: a da Alma, e a do Corpo.

Estava Espinosa a descansar de frente para uma janela, incapaz de impedir o forte instinto da contemplação, quando alguém bateu à porta. O filósofo foi ver quem o incomodava àquelas horas: era um cavalo alado. Um bicho branco, maior do que aquilo que era normal na sua espécie, com uma crina tão exuberante que só poderia ter sido obra de um demiurgo (essas coisas todos sabemos por inspiração), e umas enormes asas sem nenhuma pena da fantasia.

– Monta sobre o meu dorso. Levar-te-ei até Deus, e conhecerás tudo aquilo que ainda te faz ignorante.

No entanto, Espinosa não se impressionou. Sabia que este animal não existia, e que, mesmo se existisse, seria instrumento inadequado para chegar a Deus: Este é de tal modo generoso em imanência que não está ao alcance de asas.

Fechou a porta, e regressou ao descanso.

Ao bater o fim da tarde (os relógios que ele construía não tinham números mas palavras), o pensador foi fazer o seu passeio rotineiro. Ele defendia que a sua arrogância era uma obsessão pela alegria, e por isso desafiava tudo aquilo que pudesse atrasar o Homem com sentimentos menos potentes. Ao sol poente, chamava-lhe mesmo uma cebola: alguns poetas, pobres imbecis, perante o crepúsculo desatavam a chorar. Espinosa, pelo contrário, tinha a luz permanente do seu rigor.

Numa ponte pouco frequentada, encontrou um cavalo. Mas um cavalo sem asas, sem fala, amarelado, nada tendo roubado à natureza dos homens. Como apreciava os prazeres da vida, subiu para o dorso do belo animal, e incitou-o a prosseguir com calma. Espinosa sentia-se feliz. As coisas estavam todas no seu sítio.

Mas eis que o cavalo levanta voo.

– Como pode isto ser possível? Este cavalo nem asas tem…

Caro Espinosa, para os homens sem tragédia, a imaginação é sempre um destino. Aqui está a sua resposta.

domingo, setembro 02, 2007

Integridade

"(...)
Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.


Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

(...)"


Alberto Caeiro


O espírito tem muito a aprender com o corpo.

O corpo precisa de respirar. E quando respira, só mente para si mesmo se não estiver consciente dessa mentira (por exemplo, se estiver a inspirar monóxido de carbono em excesso).

O espírito precisa de pensar (de assimilar o real, de o transformar no íntimo e de o expirar metamorfoseado para o mundo). Um espírito que tome o corpo por modelo (Nietzsche, Breton, etc.) pensa sempre com sinceridade (a não ser que o inconsciente o atraiçoe - o que, de resto, sempre acontece).

É preciso pensar como se a sobrevivência do espírito disso dependesse.

Babel

No poema VII de "O guardador de rebanhos" (edição da Assírio e Alvim), Alberto Caeiro diz:

"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
(...)"


Na sua defesa da ruralidade (como modo de vida que permite um uso mais apropriado dos sentidos), o heterónimo de Pessoa enuncia, portanto, um critério celeste. A nossa riqueza depende da quantidade de céu que os nossos olhos conseguem abarcar.

Mas logo no poema seguinte, ao falar da criança Jesus, ele diz:

"(...) Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

(...)"


Pessoa fora educado sob a intensidade da língua inglesa. Por isso, talvez não seja um delírio pensar que a génese deste heterónimo esteve parcialmente dependente da diferença bem precisa que em inglês se estabelece entre sky e heaven.

Em português, o céu é demasiado ambíguo (só através da definição se consegue demarcar as suas duas possibilidades). Ora, na opinião de Ricardo Reis, Caeiro pretende reconstruir o paganismo a partir da sua latência degenerada no cristianismo. Precisa de libertar o céu do céu. Assim sendo, e ao contrário do que pensava o heterónimo das Odes, a aparição da figura de Cristo (ou de Santa Bárbara) na obra não-religiosa de Caeiro não é um erro, mas uma imposição da língua portuguesa.

No divã (mas sem conforto)

Se um cineasta tem de encaminhar a sua obra por uma via psicológica, que o faça então com a intensidade exaustiva, arriscada e transformadora de Ingmar Bergman.

sábado, setembro 01, 2007

Galeria 31



Dylan Thomas

O coleccionador 9

Fragmento do Prólogo em verso que Dylan Thomas escreveu para os seus Collected Poems:

" (...)
As the flood begins,

Out of the fountainhead

Of fear, rage red, manalive,

Molten and mountainous to stream

Over the wound asleep

Sheep white hollow farms


To Wales in my arms.
(...)"


Thomas encena-se a si mesmo como um construtor de arcas (os poemas) que salvam o mundo do dilúvio (que pode ter ou não ter sido criado pelo próprio autor). Neste pequeno excerto, ele diz que a maré diluviana vai cair sobre as pequenas quintas adormecidas (e brancas como as ovelhas) to Wales in my arms. A preposição to não é fácil de interpretar, mas podemos pensar que é aqui usada no sentido de toward. Ou seja, o dilúvio ameaça as pequenas unidades rurais até que o poeta as abraça, e nesse salvamento as transforma numa grande unidade espiritual colectiva que é o País de Gales.

O poeta é um fazedor de comunidade.

Acasos com sentido

1. Apócrifo

Comprei na Aki um daqueles móveis que ali dão a impressão de poderem ser montados por crianças. Claro, em casa pusemos a coisa de pernas para o ar: prateleiras em queda, pregos a rebentarem superfícies, o equilíbrio impossível de atingir (um pouco o que, após a infância, fazemos com a vida)... Em desespero de causa, resolvemos recorrer a um senhor que vive no fundo da rua e que, chamando-se Pinho, tem a profissão consonante de carpinteiro. Mas quando lá chegamos com a nossa desobra, havia um papel à entrada com a seguinte mensagem: "Volto já, senhor Jesus".



2. Off

Hoje o Porto está um pouco hawksiano. Homens que voam dentro de aviões de brincar, com a sorte de estarem sujeitos a múltiplos Gs, e que fazem oitos cubanos e outras coisas que não sabemos se são saltos mortais ou marcas de charutos. Avesso a multidões e a presidências fluviais, não fui para o meio do mar de gente. Na televisão, um locutor da RTPN, que normalmente apresenta as notícias como se fosse Sísifo a empurrar a sua pedra, estrebucha de entusiasmo infantil. Curiosamente, um dos virtuosos intérpretes do ar tem o extraordinário nome de Sergei Rakhmanin...