quarta-feira, agosto 29, 2007

À prova de prazer

Tenho uma incontornável admiração por diversos aspectos da criatividade de Quentin Tarantino. Em primeiro lugar, parece-me evidente que ele é o melhor escritor de diálogos do cinema contemporâneo (daquele que eu conheço, claro). É ainda um prodigioso director de actores, capaz de pegar em esquecidos canastrões como John Travolta e fazer deles verdadeiros intérpretes. Acima de tudo, respeito a atitude de quem só filma o que lhe dá prazer (Tarantino foge à alta cultura, ao cinema de causas, à abjecção, ao lirismo, à sisudez, etc.).

Mas é precisamente este último ponto que me impede de apreciar o seu cinema. Pois eu não gosto de carros, a violência-tipo-sumo-de-tomate não me interessa nada, adormeço nos filmes de acção, e etc. e etc. Se ele é sincero, também eu, enquanto espectador, o sou. E há ainda o problema de Tarantino filmar todo o sofrimento como se sofrimento não fosse (é uma brincadeira). Talvez eu seja conservador, mas isso parece-me absolutamente inaceitável.

Assim, "Death Proof", o seu filme que mais me tocou, parece valer acima de tudo como uma actualização dos universos de Cukor (o triunfo da mulher sobre o homem) e de Hawks (a masculinização da mulher, ou seja, a sua libertação da tradição cultural do seu género para que ela se torne a compincha do seu par masculino). Um projecto acertado para um mundo que se quer cool.

De resto, é claro que todos somos meros duplos dos modelos da nossa imaginação.

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