sexta-feira, agosto 17, 2007

Partilha 18

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


A nossa memória é um pintor moderno, não por dramática vocação, mas porque o seu talento para a selecção (há quem lhe chame esquecimento) despreza o saber-fazer da mimese a favor da simplificação.

Da minha viagem a Amarante, terra de pintores de cores frias, o que na mente retive foi quase só o verde denso, não alegre, a um passo de ser luxuriante, do seu arvoredo de Verão. O dia era de atmosferas sombrias. E assim, nesse clima de ressalva, fiquei de tal modo propenso à minha costela de Elstir, que o próprio Tâmega, o menos camaleónico dos rios, passou a correr em mim com igual caudal de verdura.

Até aqui, tudo bem. O dia não era de feras, mas de atmosferas, e existe um antigo sentimento de turquesa que a tudo impõe a hesitação entre o azul e o verde.

Mas quanto mais recordo Amarante (e vai tudo sendo sorvido pelo contágio de uma impressão), mais me pergunto se o céu (sim, o céu, esse infinito alérgico a qualquer transformação plástica), não seria igualmente verde, um verde denso, não alegre, que o lugar inteiro estivesse assim submetido a uma monotonia cromática (a uma metáfora).

Subtilmente, a memória pintou a minha viagem. Ou com a loucura de Amadeu, ou com a insistência nocturna de Carneiro, mas pintou em liberdade.

Mas eu não sei se este caso de contaminação sempre acontece quando um lugar é demasiado intenso, ou se está especificamente associado à cor verde. Pois se o céu fosse de arrebol, e as árvores estivessem no seu período outonal, seria a memória tão rebelde (tão fauve) que fosse capaz de pintar o Tâmega com um vermelho de perdição?


(Imagem gentilmente roubada ao blogue Anomalias)

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