quarta-feira, agosto 15, 2007

Orfeu

O artista nunca pode permanecer arcádico. Mais tarde ou mais cedo, tem de se confrontar com a morte. Confronto que pode revestir-se de diversas formas e razões, e até de muito diferentes gravidades: tanto pode ser Cukor documentando ficcionalmente o fim do poder masculino, como Celan exorcizando os insuperáveis dilemas pessoais e colectivos resultantes do Holocausto nazi.

Mas se Orfeu seduz os deuses do infra-mundo com a sua arte, o facto é que, por causa de um capricho emocional, não consegue libertar Eurídice da morte. Pois o artista só sabe funcionar com as armas da vida. E a vida é isso mesmo: ceder à emoção, não ter a certeza, desobedecer à lei. É olhar para trás como uma criança perdida.

O artista é, portanto, um perdedor. Mas a sua favola tem de ser sempre repetida e actualizada, da mesma maneira que a camélia e o pendolino sempre renascem, sempre regressam. O seu ciclo é tão indispensável e exacto quanto o ciclo das estações. Afinal, ele assume o jogo que se trava entre a natureza humana e a humana história.

E depois, cada um tem o seu deus ex machina. A Plath lá morreu, o Gauguin foi parar a uma terra exótica, o Orfeu de Monteverdi foi salvo pelo Sol.

Pois é: alguns só precisam da alvorada.


(Reprodução de uma pintura de Corot: "Orphée ramenant Eurydice des Enfers")

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