domingo, agosto 19, 2007

O INACTUAL 19

"Il Casanova di Federico Fellini" - Federico Fellini (1976)


Mesmo nos seus projectos ditos realistas, Fellini esteve sempre decidido a encenar apenas três tipos muito precisos de atmosferas: a orgia (o realizador, nada imparcial, sente o divertimento colectivo contemporâneo como uma monstruosidade triste), o circo (a réstia de infância que parece possuir em si a harmonia vital) e, aspecto quase nunca valorizado, o sussurro (a realidade reduzida a uma deambulação poética em pianíssimo).

Ao dar um corpo à biografia do mítico sedutor de origem veneziana, Fellini coloca duas visões da vida em confronto. Só que essa polaridade não é a que o personagem corcunda propõe no seu jantar (tensão entre os moralistas cinzentos e os lúbricos) mas aquela que divide os que supõem que o amor é um mar de rosas e aqueles que não o desligam do sofrimento, do ódio até.

O próprio Casanova julga que o oposto do sexo (que ele pratica como um atleta de alta competição) é o espírito (ele quer é ser reconhecido como poeta, matemático, filósofo, estratega...). No entanto, as restantes personagens estão sempre a metê-lo na ordem: só se interessam mesmo é pelo perito de foda, pela sua dimensão mecânica (extraordinária cena na taberna em que a actividade sexual abranda e recomeça como se tivesse sido desligada e logo reactivada por uma pilha).

Toda a sociedade da época vive imersa num lirismo (flatos de piedade, obras alquímicas, a música do violencelo) que é ilusório, não porque se oponha à ciência (Fellini é demasiado poeta para positivismos), mas porque as pessoas não têm consciência de que tudo isso é um conjunto de alibis para o sexo.

Não: a proposta do autor é mais lúcida. A cena-chave do filme é a dança entre Casanova e uma boneca mecânica. É um momento ao mesmo tempo monstruoso (o sedutor acaba por dormir com o objecto), circense (espectáculo mágico mas fingido) e sussurrado (é uma cena de invulgar delicadeza). Ou seja, a alta-voltagem da emotividade felliniana concentra-se aqui para, ao mesmo tempo, dar uma imagem da beleza do amor e do seu doloroso absurdo.

Libelo a favor da poesia (como sempre acontece em Fellini), o filme é estranhamente feminista: a mulher é mostrada como o sexo mais forte (a gigante lutadora) mas historicamente oprimido pelos homens (os dois anões que a controlam).

E depois, há o Passado, que o realizador assume como um lugar da imaginação: a reconstituição histórica resulta da pincelada do onírico (entre grotesco e sublime) na memória do real. Afinal, no século de Casanova haveria certamente enorme candelabros de velas. Mas seria pouco provável que essas velas fossem apagadas da maneira excêntrica proposta pelo realizador.

E no entanto, nós acreditamos.

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