segunda-feira, agosto 20, 2007

o fim não é o fim

No "Tratado Lógico-Filosófico" de Wittgenstein, há dois pontos de chegada que me impressionam enquanto leitor mais inquieto do que apenas curioso.

Por um lado, a defesa de uma ética do silêncio racional. Mais uma questão de rigor do que uma forma de misticismo, este não pensar aquilo que apenas resulta do logro da linguagem (porque é através da linguagem que pensamos).

Mas também me parece bravo (e de interesse essencialmente político) o seu preterir de uma crença cega no nexo de causalidade em favor de uma lógica de probabilidade. O futuro não pode ser previsto: se não conhecemos deveras os factos que a situação futura nos vai trazer, então não podemos ter a certeza de que o Sol vai mesmo nascer amanhã, mas apenas tomar essa alvorada como uma fortíssima probabilidade (lógica). Por muito que isto incomodasse Bertrand Russell, a mim parece fazer todo o sentido.

No entanto, há no livro diversas teimosias que me deixam perplexo. Pois se este sistema de pensamento apenas fosse aplicado à Natureza e à dimensão física do Homem, talvez não fosse criticável. Mas como se pode ignorar a Psicologia humana, com a desculpa de que o pensamento só é articulável através da lógica? Se o Universo é um relógio de maravilhosa precisão, a psicologia humana vem contornar e pôr em causa toda essa matemática reconfortante: traz consigo coisas tão estranhas como a esperança, o desejo, a frustração, a imprevisibilidade da acção, a crueldade requintada... Enfim, esta excessiva fé na Razão (precisamente na altura em que se começava a mergulhar no labirinto do inconsciente) talvez tenha alguma terrível motivação psicológica por trás de si...

Ora, enquanto a religião pretende construir todo o seu edifício com base num supersticioso nexo de causalidade (Deus encarnou mesmo num homem, esse homem ressuscitou mesmo, e tudo isso é para acreditar da mesma maneira como acreditamos que os movimentos de rotação e translação fazem com que o sol nasça sempre após cada noite), a poesia é mais (menos?) humilde e abre o seu caminho com a arma da probabilidade. Há mesmo quem fale (romanticamente) de uma aproximação inesperada entre ciência e poesia. E de facto, tantas são as surpresas que a Natureza e o Universo nos provocam, que somos levados a crer que, se ainda não existem catedrais feitas de algodão de celulose ou de muco de caracol, isso apenas se deve ao atraso da investigação científica. Mas, devaneios à parte, a verdade é que a poesia explicita a probabilidade da psicologia humana: aquilo que o conhecimento (auto, hetero, a experiência vital) nos permite esperar da nossa própria espécie.

No prefácio à edição do "Tractatus" pela Fundação Gulbenkian, M. S. Lourenço diz que a tese de Wittgenstein só poderá atingir a sua plena validade no fim da História. Ora é precisamente para aí que a poesia aponta. A poesia abre-se para um mítico horizonte, que os mais sensatos tomam como instrumento de trabalho e não como crença.

A poesia é a linguagem relevante e o silêncio justo.

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