domingo, agosto 26, 2007

O coleccionador 8

Em "O conto dos crisântemos tardios", o cineasta japonês Kenji Mizoguchi elabora uma delicada parábola que pode ser lida como a reivindicação de que o cinema é a destruição da pintura (enquanto cineasta, Mizoguchi é um herdeiro das artes plásticas) pela realidade física e psicológica do humano (do actor). No caso deste realizador, o recurso ao melodrama não é uma questão de facilitismo emocional, mas a crença de que só o sofrimento (alegria incluída neste vocábulo) pode dar sentido a qualquer Beleza.

A cena que, no filme, mais me fascinou é aquela em que o protagonista (um jovem actor filho de uma celebridade dos palcos) faz uma lenta caminhada com a ama do seu irmão bebé (sua futura companheira). Ela está a tentar sossegar a criança. Não falta muito para a alvorada. É talvez a primeira vez que conversam longamente e ela aproveita para lhe dizer que, se ele quer evoluir como actor, tem de saber que, naquele momento, ainda é muito fraco no seu ofício (sinceridade com que ninguém o havia confrontado até então). O homem segura na mão um encantatório espanta-espíritos que acabou de comprar (durante o filme, há quase sempre alguém a cantar ou a tocar música, o que só confirma a tentação pelo lied que nele está latente). Toda o plano-sequência é filmado num insólito contra-picado, a caminhada seguida por uma câmara em movimento subtil.

Mizoguchi parece estar a tentar filmar (se isso for possível) esse momento mágico em que de súbito surge uma intimidade entre dois seres. Daí o pudor formal com que a cena é tratada: não se pode cortar a sequência nem apressar a sua acção, não se pode estar demasiado perto, é preciso estar quase hipnotizado, os futuros amantes passeiam como pré-monumentos que transportam nos braços o que ainda não é seu.

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