terça-feira, agosto 07, 2007

O ACTUAL 14

"Bug" - William Friedkin


Ao contrário da opinião corrente, não tenho nenhum apreço especial pelo cinema americano dos anos setenta. Como em todas as épocas, surgiram grandes realizadores (Scorsese, Woody Allen, Peter Bogdanovich). Mas a maior parte do produto da década é ao mesmo tempo mais petulante e mais convencional do que o cinema europeu seu contemporâneo (o classicismo pode ser americano, o pós modernismo é oriental, mas a modernidade do cinema é europeia).

Não conheço a obra de Friedkin (apenas sei dizer que "The exorcist" é um filme supérfluo), não tenho nenhum interesse pelo thriller paranóico, e talvez nem tivesse grande vontade de ir ao teatro ver a peça que está na base de "Bug". E no entanto, o filme convenceu-me porque desenvolve de forma comprometida três assuntos essenciais.

Em primeiro lugar, Friedkin dá-nos uma imagem poderosa da solidão. Se na primeira parte da obra, a angústia da personagem de Ashley Judd é mostrada de forma realista (muito ao jeito dos anos setenta, curiosamente), o cineasta apressa-se a substituir essa subtileza por uma deriva histérica. A solidão da protagonista era afinal tão funda, que ela prefere acreditar (ou fingir que acredita) no delírio de um esquizofrénico a perder a ilusão de calor humano. A solidão não é uma melancolia leve, mas um monstro que dorme no íntimo e que pode degenerar a qualquer momento (haverá aqui um paralelo com "Taxi Driver").

Depois, conforme os dois doidos vão construindo uma ficção em torno de si (o cenário naturalista é substituído por uma abstracção de estúdio, por uma alegoria), eles vão-se libertando daquilo que neles era ilusão e entram em contacto com o seu único e terrível desejo: morrer (ele, por causa da doença psiquiátrica, ela, transtornada pelo trauma de ter perdido um filho no passado). Depois da explosão em que eles se imolam, o filme termina abruptamente porque já não tem razões para continuar. A ficção excessiva apenas foi usada para eliminar as ficções banais.

Por fim, Friedkin consegue captar a influência do nazismo (e seus derivados) no imaginário humano. Não me parece que o autor queira defender a administração Bush das diversas acusações que lhe são feitas. Ele mantém-se, aliás, algo alheio à actualidade, e a paranóia que exibe tende a ser algo intemporal. No entanto, os nazis são referidos mais do que uma vez. E de facto, o Holocausto trouxe novas intensidades ao mal humano (a amplitude do cálculo, a organização pérfida, a perda de todas as referências éticas, a substituição da simples crueldade pela indiferença perante o horror, etc.). E parece-me que neste filme se mostra como a cultura da nossa espécie ficou para sempre transtornada por essa calamidade. Peter Evans seria um louco perigoso em qualquer tempo, mas o teor concreto do seu delírio é um indicador do estado psíquico da Humanidade (enfim, com muito menos drama, todos vimos como um documentário manhoso sobre o 11 de Setembro encontrou o seu séquito de irresponsáveis admiradores).

Ainda por cima, os actores são magistralmente dirigidos (inacreditável Michael Shannon, mas também Ashley Judd ou Harry Connick Jr), o ponto de vista sobre as personagens é militantemente tolerante (as personagens menos negativas são a lésbica e o ex-presidiário), e há mesmo algum apuro formal na construção do filme (a subtileza do raccord entre o interior de estúdio e o exterior naturalista, o movimento de helicóptero sugestivo de uma observação de FBI que de repente se repete mas já truncado).

O espectador pode não aderir ao projecto (a estética é algo abarrocada). Mas deverá pelo menos intuir que, neste caso, o gore não é gratuito, mas sim a maneira encontrada por Friedkin (cada um tem a sua) para abordar algumas das questões mais pungentes que nos afectam, no presente e em todos os tempos.

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