quinta-feira, agosto 30, 2007

No escrínio 28


Poema "O imperador dos gelados" de Wallace Stevens, tradução de Jorge Fazenda Lourenço:




Chamem o enrolador de grandes charutos,

O mais musculoso, e ordenem que bata

Em tigelas de cozinha concupiscentes natas.

Que as raparigas preguicem com as roupas

Que costumam usar, e que os rapazes

Tragam flores em jornais do mês passado.

Que ser seja o finale de parecer.

O único imperador é o imperador dos gelados.


Tirem da cómoda de madeira de pinho,
A que faltam três maçanetas de vidro, o lençol

Em que ela uma vez bordou pombas de leque

E estendam-no de modo a cobrir-lhe o rosto.

Se os seus pés calosos apontarem, é para

Mostrarem como está fria, e muda.

Que a lâmpada fixe a sua luz.

O único imperador é o imperador dos gelados.


O poema é suficientemente ambíguo para arcar com as mais desvairadas interpretações. No entanto, a mim parece-me ser uma clara figuração da morte.

A primeira estância, doce e inocente, não permite prever o cadáver que, sem mudança de tom lírico, se insinua na segunda parte do poema. Mas o texto antecipa a surpresa quando nele se afirma Que ser seja o finale de parecer: dito de outro modo, a primeira estância constrói uma ilusão (uma parecença) que na segunda é desfeita e reconduzida ao seu verdadeiro sentido (a essência, o ser).

A partir daqui, múltiplas hipóteses se colocam. Ou o texto contempla uma passagem de tempo, com um início dedicado às alegrias da juventude e fechando o seu impulso biográfico no perecimento. Ou a primeira estância, sincera, descreve afinal os afazeres de um funeral (vestir-se de maneira apropriada, levar flores, preparar um banquete) como uma festa inesperadamente vital. Ou tudo isto se trata de uma rigorosa estratégia de exposição, onde primeiro se oferece a metáfora (com toda a liberdade e imaginação que esta permite) e depois a sua terrível decifração.

O tom é particularmente conseguido. Evoca-se a mais terna das recordações (comer gelados) para descrever o mais abismal (e frio) dos eventos. Recorre-se a palavras eróticas (concupiscent, mas também horny) para adensar o contraste. E acima de tudo, o poema deleita-se na enumeração daquelas futilidades que fazem o prazer de viver: os charutos, os músculos, as natas, as roupas, as flores, o lençol, as pombas de leque).

Escritor de política subtileza, Stevens reconhece que o único verdadeiro império é o da morte (não pode ser vencido, aplica-se a toda a Humanidade, é absoluto). A vida é, portanto, o lugar de todas as relatividades, desleixos e imperfeições: os jornais que trazem as flores são do mês passado, à cómoda faltam-lhe três maçanetas. Na vida, parecemos. Na morte, somos.

Sem comentários: