quarta-feira, agosto 01, 2007

No escrínio 27

Poema de e. e. cummings, traduzido por mim:


Um(fragrância)De

(Começa)
milhões

De Tintas(e)
&
(muda-se)Devagar(devagar)Viajando

tons íntimo tumulto
(Em)mete à força
e depressa em
sonho(Uma)as mentes

Não

un deux trois
der
.....die

Se levantaram(aparição.)
COM(O AR REDONDO ENCHE-SE)ABRIR

(No meu site do myspace, está uma fundamentação das principais opções desta minha tradução.)


O texto é constituído por duas séries editadas em montagem paralela: uma série dentro dos parêntesis, a outra fora deles. Por sua vez, cada série é constituída por duas frases de sintaxe ambígua (Série um: Um, de milhões de tintas e devagar viajando tons, íntimo tumulto mete à força e depressa em sonho as mentes; Não un, deux, trois, der, die, se levantaram com abrir. Série dois: Fragrância começa e muda-se devagar em aparição; O ar redondo enche-se). Algumas palavras repetem-se, surgem os dois géneros dos artigos definidos alemães (der, die), a própria sinestesia funciona de forma cruzada e especular (a fragrância provoca uma aparição, as cores causam uma abertura).

Este esquema dual, rigorosamente dominado pelo poeta, é o eco formal do assunto do texto. Na verdade, o autor está a descrever um nascer do sol (não me parece que o poema se possa referir ao crepúsculo da tarde, quando surgem palavras como grows, stood, opening). Assim, cada uma das séries se refere a uma das realidades que aqui estão misturadas por breves momentos: a noite e o dia.

A leitura do texto provoca então um efeito de caos irracional, da mesma forma que o arrebol da alvorada provoca uma emoção indefinida no seu contemplador. Se analisarmos o poema, esse caos desaparece. Mas a leitura é aqui um factor funcional do próprio sentido do texto. Lemos facilmente a noite e o dia quando estão separados. Já o nascer do sol é uma mistura tipográfica na folha do céu.

Claramente, a declamação do poema constituirá um desafio praticamente irresolúvel. Cummings exige que o seu texto seja lido: é poesia visual.

Só a palavra slowly, repetida por contiguidade, cria um laço entre as duas séries - é o tempo que define o fenómeno. As maiúsculas vão rasgando o corpo do texto (como tímidos raios) até explodirem na luz do último verso (quando a dúvida se dissipa). Já a conjunção and tem expressão gráfica distinta nas duas séries: a relação crepuscular entre as duas realidades não é verdadeiramente copulativa.

Todo este milagre lírico é irracional: não segue uma ordem (un, deux, trois), nem pode ser reduzido a conceitos rígidos (der, die). Ora, o poeta decide exprimir o absurdo recorrendo a línguas estrangeiras (o francês e o alemão) e às próprias cacofonias que a irregularidade gráfica vai propondo: anfragranceof, por exemplo, parece uma palavra de uma língua desconhecida.

Afinal, se a aparição tem direito a um ponto final (vemos, realmente, alguma coisa), aquilo para que essa aparição abre não pode ser contido nem apaziguado por nada. Eis um inefável construído com a mais rigorosa das inteligências.

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