segunda-feira, agosto 06, 2007

À escuta

No espectáculo "Ópera" (em cena no espaço "Negócio" até ontem), concebido e interpretado por Tiago Guedes e Maria Duarte, os dois performers cantam em playback a partitura integral de "Dido and Aenas" de Purcell.

Dessa forma, os intérpretes debitam as palavras do mito sem recorrerem às suas próprias vozes. Como se dissessem algo que não lhes pertence, algo de que nunca poderiam ser autores. Ora, a partir do momento em que um ser não assume a sua voz na enunciação do verbo, o seu corpo fica de imediato interrompido. A dança daí resultante pauta-se então pela atracção pela imobilidade, pela coreografia do menor esforço, pela ironia, pela modéstia do esboço.

Não será dessa forma que nos movemos na existência? Tentando, com pouca liberdade e sucesso, dar corpo a um património que é tão genético quanto mítico?

(Imagem de Pierre-Narcisse Guérin)

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