domingo, julho 08, 2007

Toujours

No caso de Oliveira, o que é estranho não é tanto o seu cinema (de qualquer modo, a estranheza é bem-vinda neste blogue), mas o facto de, a partir de uma certa altura da sua vida, ele ter deixado de ter impedimentos para filmar (algo de semelhante acontece com Godard). Pois a sua obra está destinada a não gerar consenso.

Aliás, criticá-lo é um desafio demasiado fácil para valer o esforço de o fazer. Adiantando-me aos seus inúmeros detractores, afirmo que Oliveira comete todo o tipo de erros: erros de casting (insiste em convidar familiares, amigos e até técnicos para representarem personagens que exigiriam o investimento de grandes actores), negligências na direcção dos intérpretes (o papel resulta sempre da décalage entre a pessoa do actor e o seu entendimento da personagem), ingenuidades (recurso constante a instituições de prestígio, desde a Orquestra Gulbenkian até à Fundação de Serralves, independentemente da sua eficácia para a encenação), desconfortos discursivos (quando não se cinge à inteireza de um grande texto, Oliveira mostra as suas fragilidades como escritor), anacronismos gritantes (mas quem é que ainda vai para um convento?), escolha de tons que mais ninguém escolheria (o realizador parece por vezes um avozinho, noutras um professor, etc.), inverosimilhanças (a sua Paris não existe em lado nenhum), cedências ao kitsch (aquelas bailarinas que surgem em "A caixa"), e etc., e etc.

Ora, para além de muitos destes defeitos terem de ser compreendidos com o devido desconto da nossa parcialidade nacional (uma vez conheci um sueco que me garantiu que, apesar de nós não o notarmos, os actores de Bergman são demasiado teatrais; e o que dirão os iranianos dos intérpetes não-profissionais utilizados pelo Kiarostami...), o que me parece admirável em Oliveira é a sua violenta recusa em fazer um cinema de correcção profissional. Penso que não há nenhum outro cineasta no activo que manifeste uma insolência tão completa perante a dimensão industrial daquela que é chamada a sétima das artes. Os aspectos dominantes da cultura anglo-saxónica (competência, competitividade, cedência perante aquilo que que se supõe ser o gosto do público, massificação dos processos, substituição do artesanato pela mecanização, etc.) não encontram nenhum eco nesta estética. Nenhum.

É claro que um qualquer Barthes actual saberia desmontar as tremendas ingenuidades (e mediocridades) que estão por trás das mitologias do cinema hollywoodiano contemporâneo. E também é óbvio que Oliveira é capaz da maior sofisticação (o contrapicado de Veneza em "O espelho mágico", o trabalho formal de "O meu caso" com base na variação musical, os enquadramentos de "A divina comédia", a simbolização conseguida através da duração do plano no caso da roda da carruagem em "O dia do desespero", o frango oferecido por Mariana como quem oferece a sua vagina em "Amor de perdição", os cenários pintados de "Francisca").

Mas neste post eu prefiro defender que não há erro que Oliveira não transforme em procedimento ao mesmo tempo estético e semântico. Se, em "Belle Toujours", Júlia Buisel não sabe fazer o papel de prostituta, isso deve-se ao facto do autor a ver como um anjo (na medida em que talvez ninguém saiba representar esse papel... profissional). Bulle Ogier substitui Catherine Deneuve no papel de Severine (ninguém sabe muito bem quem recusou o quê), não só porque a personagem se tornou outra pessoa (de masoquista passou a religiosa), mas também porque o realizador já não é Buñuel. Aliás, se este fez um tremendo achado de casting ao escolher Deneuve (a pura rapariguinha de "Les parapluies de Cherbourg") para encarnar uma personagem tão corrosiva, Oliveira não está interessado numa afirmação tão peremptória. O seu cinema é ao mesmo tempo mais generoso e fundado na dúvida: talvez o autor português não consiga conceber a perversidade. O próprio facto do filme ser muito sublinhado (as mesma ideias constantemente repetidas, os mesmos planos, etc.) é usado com ironia. "Belle Toujours" é um texto grafado a negrito, sublinhado, cheio de itálicos, mas onde o conteúdo parece estar, afinal, apagado.

Filme fundado sobre uma lágrima (a tristeza do marido no final do filme de Buñuel, cuja razão ninguém conhece), parece também ele escorrer em direcção à sua dissolução. Pois Oliveira clama, infantil e sabiamente, pelo mistério. A beleza, a mulher, o envelhecimento, o amor, o sexo, a música: tudo isso é colocado nos eixos do mais absoluto mistério (a despeito de toda a ciência, da economia ou do entretenimento). O cineasta prepara-nos assim o mais requintado jantar, para nos deixar apenas com o silêncio, a luz crepuscular, e a terrível opacidade da palavra. A absurda galinha vem do imaginário cru de Buñuel (faz lembrar a avestruz de "Le fantôme de la liberté"). Oliveira traz tudo mais cozinhado, apurado, regado com vinho, humor e especiarias. O espanhol vivia dividido entre o dia e a noite. O português já está na síntese da eternidade: só lhe falta mesmo morrer.

Sem comentários: