quinta-feira, julho 05, 2007

Segunda Parte, Capítulos XL e XLI

A um dado momento do romance de Cervantes, o casal de duques que resolveu pregar partidas pedagógicas a Quixote e Sancho, inventa mais uma das suas destravadas fantasias cénicas. Ao cavaleiro andante e ao seu fiel escudeiro surge então uma estranha personagem chamada Trifaldi (ou Dona Dolorida) que lhes vem propor uma nova aventura.

1. A aventura toma como lugar o imaginado reino de Candaia. Dona Dolorida diz a Quixote que, se tentarem viajar até Candaia por terra, isso custar-lhes-á cerca de cinco mil léguas de caminho, mais duas ou menos duas. Mas se cortarem caminho em linha recta pelo ar (num cavalo apropriadamente alado), o percurso passa a ter como medida três mil e duzentas e vinte sete léguas. Para além do humor evidente, Cervantes parece querer afirmar que só a imaginação nos permite atingir números exactos. E de facto, toda a História do Pensamento Humano o confirma: muito antes da sofisticação experimental e dos métodos de medida modernos, a maior parte das grandes conclusões científicas foram atingidas por processos de pura abstracção. A matemática é, assim, a féerie da verdade absoluta.

2. A grande aventura consiste, afinal, numa luta que Quixote deve empreender com o gigante Malambruno para que Dona Dolorida, e suas doze amigas, percam a barba que por castigo e feitiço lhes foi colocada no rosto. A aventura tem por isso uma dupla componente: uma dimensão-sancho (o cavaleiro vai fazer, por linhas travessas, o trabalho de um banal barbeiro) e um elemento profundamente quixotesco (ele vai libertar a feminilidade de marcas viris, trabalho ideal para um indivíduo que trata a mulher como um mito). É a alegoria do que pode ser a grandeza do gesto humano.

3. Quixote e Sancho são colocados em cima de um cavalo de madeira, seus olhos são vendados, e todos os circunstantes começam a gritar coisas como: "Lá ides vós, lá ides por esses ares, rompendo-os com mais velocidade que uma seta!" O facto é que os dois tolos acreditam mesmo que estão a voar (Sancho até diz que passou algum tempo com as sete cabrinhas, que são as estrelas da constelação das Pleiades). É que se a imagem visual está dependente da realidade (a negação dessa ontologia constitui sempre uma acto de criação artística), a imagem verbal é muito mais livre em imaginação (o seu limite depende apenas da ética). É a palavra que permite voar.

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