terça-feira, julho 24, 2007

Partilha 17

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


Quando o nocturno cai sobre o teclado do piano, tal queda só se faz à custa do sofrimento das mãos do pianista. Pois toda a noite chega precedida de um crepúsculo, e por cada nota que percute, o pianista envelhece um pouco o seu corpo. Coisa diversa acontece em Amesterdão.

Uma cidade define-se pela forma como acolhe a noite. Viena torna-se nocturna como se fosse envolvida por um celofane, ou uma qualquer gaze higiénica. O Porto torna-se deserto, Veneza perde elegância, Barcelona sucumbe ao perigo. Nenhum lugar resiste à falência da luz (fallência, dirão os americanos, que por tudo e por nada inventam uma ciência). E o arrebol (como o Outono) é cruel e desumano, desfaz-se em mil anotações sobre as cores que nós acusamos de mau gosto só porque a nossa própria decadência não tem beleza nem dignidade.

No coração de Amesterdão, os candeeiros são muito suaves. Não competem com as estrelas, nem tomam a noite pelo dia. Brilham na medida exacta para nos darem a ver a noite (o invisível), como se fossem Virgílios prosaicos (mordomos) a abrirem o caminho de um mundo outro. Suave também o silêncio (onde está o inferno automóvel?), pois tolera, sem constelar (sem alucinar), alguns chilreios e agitações aquosas. Os eléctricos são concertistas sui generis: conta-se que não conseguem ultrapassar o mezzoforte, mas produzem uma gama infinita de intensidades entre esse limite e o pianíssimo. Sem electricidade, as bicicletas parecem retirar o esforço aos corpos humanos. Mas ainda que pré-velozes (ou pós-alados), os corpos estão ao alcance do toque, sem carroçarias nem chassis. Os corpos estão devidamente sexuados. E por fim, as casas, seiscentistas mais na personalidade do que na data: a sua arquitectura fala mas não corporiza o tempo perdido.

Assim, a noite cai em Amesterdão sem a intervenção, sem a mão virtuosa de um Deus. Nenhuma dor, nenhuma velhice, só pensamento. A noite parece um líquido negro que, terno, se mistura lentamente com a água. É uma noite doce, essente: essencial.

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