domingo, julho 15, 2007

Partilha 16

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". Eis mais um micro-conto.)


Não nos devemos deixar surpreender pelo facto de um homem poder transubstanciar moinhos em gigantes. Mesmo que a nossa imaginação sinta dificuldade em conceber homúnculos cujos membros superiores funcionem em hélice (capazes, portanto, de num abraço virarem a nossa vida do avesso), há algo que não podemos negar: a nossa fome (literal) é de tal modo gigante, e o pão tão capaz fermentar até ocupar todo esse tamanho, que a famosa confusão de Dom Quixote de la Mancha só causa espanto por ter esperado por Cervantes para se dar a conhecer. Mas enfim, o mundo mói-se devagar para que os velhos se possam ir trocando por miúdos.

E lá estava ele, elmo de barbeiro na cabeça (afinal, a aventura tem tanto de missão política como de habilidade de futebol), barba desgrenhada apenas por não pertencer ao queixo de um sábio, a figura esguia e seca, uma tristeza. Ao seu lado: Rocinante (que já não se deixava montar por dá cá aquela palha), um asno, e o pobre Sancho Pança. Como tinham chegado àquela ilha, não sabiam. Mas como sair de lá, já não queriam saber.

Veneza tinha tudo o que um cavaleiro andante precisava: glória doentia, o virar de imensas esquinas, e a ameaça latente de afinal se chamar Toboso. Aliás, não fosse a provecta República tão perto de tudo o que era importante, e Quixote pensaria estar a entrar no próprio reino de Micomicão.

– Senhor, senhor, por quem sois? Se a vossa fome a vós não vos dá trabalho, sabei que a minha a mim me tem bem empregado, com horas sempre extraordinárias, com semana sem fim, e supersticiosa de tudo o que seja décimo terceiro.

Ao que Dom Quixote, furioso, respondeu:

– Cala-te, tosco. Só dizes necedades. Os cavaleiros andantes só têm fome de passar ao andamento seguinte. E não penses que isto é contentamento com pouco, que o cavaleiro vero é tão-somente o que sempre anda da vida descontente.

– Contentamento ou encantamento, engane-se vossa mercê, que eu tenho os pés na terra e o estômago nas mãos de Deus.

Nisto, Dom Quixote julgou ter visto um moinho. Isso mesmo e sem tirar nem pôr: um pleno moinho em plena ilha de Veneza. Visão estranha, mesmo em delírios de cavalaria, pois a Sereníssima é mais dada à água que vendida ao vento.

– Sancho, vês o mesmo que eu?

– Senhor, no dia em que isso acontecer, o meu juízo terá por certo chegado ao seu final.

– Vejo um moinho, um moinho submisso, trabalhando como um escravo nas galés do ar.

Sancho ficou ainda mais parvo do que aquilo a que já tinha consuetudinário direito.

– Que dizeis, cavaleiro? Tantas são as sandices que eu me estou tornando homem de fé cega.

Mas era tarde. Já Quixote, sem cavalo nem asno, corria na direcção do moinho, gritando:

– Em nome de minha senhora, a quem dedico todos os meus feitos, eis que me vou a tornar teu pão mais doce.

– Defeitos, senhor, defeitos.

Munido de sua arma e de seu amor, Dom Quixote atingiu o lugar da visão do moinho.

Tonto: era uma florinha.

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