domingo, julho 01, 2007

Partilha 15

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco".

Eis mais um micro-conto.)



Dos três tipos de afecto com que o Homem frugalmente se alimenta, chamemos natural ao que cordoa pais com filhos, caramelizado ao que se apanha na paixão, e ao elo que faz de dois amigos uma amizade, chamemos-lhe seco. Não no sentido de uma pobreza emocional, mas enquanto fruto onde o alto teor calórico não é revelado pela discrição do sabor.

Naquele tempo, não era clara a diferença entre as ciências e a literatura. Muitas vezes estava aquela ao serviço desta, perfurando com bisturi o tecido morto das imagens para gerar o maravilhoso do conhecimento. Por exemplo, Próspero transformara a velhice da casca de noz num casco à prova de qualquer mesquinhez. Mas isto acontecera no domínio dos conceitos. A vida – tem demasiadas marés.

Enquanto navegava à deriva na embarcação que contra ele haviam usado como arma lenta mas letal, olhando para a sua filha Miranda, adormecida ainda no berço dos três anos (criança mais infantil que todas as outras), Próspero pensava em Gonzalo, nobre orgulhoso que não cortava sua fina-flor do fino fruto nela latente, e que, às ocultas dos traidores que haviam desterrado pai e filha do poder sobre Milão, tinha guarnecido as duas vítimas com alimento, água doce, e alguns livros secos. Tinham assim conseguido sobreviver durante vários dias, negociando com um mar demasiado dado a grandes gestos, mas que os ia poupando porque o destino tem tanta força quanto Xerazade.

Ao fim de uma semana, estavam pai e filha sonhando (um ao outro desfaziam os pesadelos), e o triste barco acostou num pedaço de terra. Uma ilha.

Nada se via. Um nevoeiro tranquilo recebia-os naquelas paragens desconhecidas e feéricas. Miranda sentiu-se logo em casa. Mas Próspero, demasiado velho para não estar inadaptado pelo amor, tinha receio pela sua filha. Retirou-a com cuidado da embarcação, e juntos entregaram-se à espessura da névoa.

Era Miranda que o guiava. Ouviam sons certamente afinados noutro mundo, diversos naipes de animais sob uma batuta pouco feroz: insectos de corda, mamíferos de madeira, o metal de estranhas aves. Enquanto algumas folhagens os aliciavam com amostras de perfumes, iam tropeçando naqueles ruídos promissores: talvez tivessem mesmo escutado a linguagem das flores, almas penadas, espíritos da idade de Miranda.

Lento, Próspero tomava decisões pragmáticas e sonhadoras em relação ao mundo novo a que haviam aportado. Era preciso conhecer aquela Natureza, dialogar com ela, ler com atenção os manuscritos do invisível (a imprensa chegou mais tarde ao oculto). Se a criança era o timoneiro, o velho proscrito era o visionário com os pés assentes na terra.

Cansados, sentaram-se à beira de uma árvore que dava frutos tão leves quanto o nevoeiro. Consolaram a gula. Todavia, ou porque ficaram envenenados, ou porque o cansaço sempre foi o melhor antídoto contra a perplexidade, acabaram por adormecer. Dormiram longas horas.

Quando Próspero acordou, já Miranda brincava – serena, e seca pelo sol. O nevoeiro tinha-se dissipado, e deixado, no seu lugar, um silêncio e uma bondade de livro. Foi então que o velho notou: estavam em Veneza.

A magia é uma coisa tão simples. E, ainda por cima, existe.

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