quinta-feira, julho 26, 2007

Opiniões nada científicas

Julgo que Beethoven foi o primeiro compositor a conseguir traduzir, através da música, o sentimento de um sofrimento irredimível. Ou pelo menos somente redimível por mão humana (daí as suas exuberantes flutuações entre pessimismo e optimismo).

J. S. Bach, Mozart ou o próprio Schubert, quando punham a dor em música, faziam-no como se essa dor afinal fizesse parte da natureza e do movimento do cosmos, e nele se integrasse como uma necessidade melancólica mas por si mesma redentora. Apesar do seu inexcedível rigor trágico, a "Paixão segundo S. Mateus", o "Requiem" ou o ciclo "Winterreise" não conseguem deixar de nos legar, talvez não consolo, mas pelo menos alguma serenidade. Um Deus convencional ou de feição mais espinozana andaria certamente por aqui.

Com Beethoven chega a solidão existencial, e também a responsabilidade, a ambição, a insuportável sisudez, a liberdade, a experimentação (para o melhor e para o pior - provavelmente não teríamos chegado a Auschwitz se o mundo não tivesse evoluído desta forma). Se o compositor (que, francamente, detesto ouvir) tivesse sido um caso isolado, eu não teria motivos para protestar. Contudo, todo o século XIX foi uma variação desta nova condição existencial, à qual se reuniram pequenas e novas mediocridades como a valorização do instrumentista virtuoso, o gosto pelo delicodoce, o emburguesamento da figura do recital, etc. Por muita qualidade que tenha a música produzida nesse momento, a minha sensibilidade regista-a como uma trapalhada emocional à qual não pretende aderir. Gosto apenas daqueles compositores que atingiram uma certa nobreza formalista (como César Franck), agilidade lírica (como Sibelius), ou que tiveram o talento da contradição (como Brahms).

Foi preciso esperar pelo século XX para que a música descobrisse o sentido do risco e iniciasse a aventura pelo desconhecido que estava latente na estética beethoveniana. No entanto, ao perder a função imemorial de consolo tonal, a arte dos sons desencontrou-se do ouvinte comum (já alguém estudou se a resistência do público à música contemporânea é um mero enguiço cultural, ou se a harmonia clássica é afinal mais natural do que pensámos?). De modo que, se eu fosse um criador de formas musicais no presente (o que não pretendo), preferiria ser o Leonard Cohen em vez do Karlheinz Stockhausen.

Tudo o que eu disse não tem ciência nenhuma. Nestas coisas de música, penso sempre à flor da pele.

Sem comentários: