terça-feira, julho 03, 2007

O INACTUAL 18

"L'amour à mort" - Alain Resnais (1984)


O filme apresenta-se como uma escavação arqueológica cujo objecto seria a dimensão intemporal da Humanidade. Podemos mesmo aproximar as suas famosas imagens de partículas em queda num fundo negro e vazio à poeira que cai sobre os corpos dos amantes no início de "Hiroshima, mon amour". Mas talvez seja mais justo afirmar (de acordo com os dados ficcionais do próprio filme) que, nessas mesmas imagens, o lixo que no resto da obra se vai acumulando nos discursos das personagens (lixo, no melhor sentido da palavra) é francamente despejado pela ou para a música do compositor Hans W. Henze (enquanto registo de um problema inefável).

De facto, "L'amour à mort" é uma sucessão de discursos, é um filme-debate. Cada uma das personagens representa uma atitude e um pensamento individualizados perante os dilemas patentes na relação entre o amor e a morte. As mulheres mostram-se mais revolucionárias (Elizabeth conquista a sua própria morte como um projecto de futuro, Judith pratica a liberdade serena de um pensamento experiente), os homens estão mais agarrados ao passado (Simon concebe a morte como uma sucessão de imagens convencionais, Jérome é autoritário à maneira dos eruditos). Por outro lado, há personagens que aceitam (Simon não quer atrasar artificialmente a morte, Judith compreende o suicídio de Elizabeth), e aquelas que não se conseguem resignar (Jérome é puritano perante a ideia de morte doce, Elizabeth não concebe a vida sem a companhia de Simon). O filme é, portanto, uma polifonia a quatro vozes: um coral (os mesmos actores interpretam o seguinte filme do autor, "Mélo", que também roda em torno da arte dos sons).

Assim, Resnais começa por propor um desvio formal específico: retira a música da ficção, e dá-lhe um espaço só seu. Surgem assim dois filmes (ou duas séries no filme): o filme-debate (com personagens, história, diálogo, etc.) e o filme-música. A opção formal espelha todo as tensões do filme: o amor (que supõe dois seres distintos que convivem em montagem paralela), mas também a amizade dos dois casais, a hesitação entre o mundo terreno e o Além, etc.

O filme-música recebe o filme-debate e torna-o abstracto. O filme-debate recebe a (sombra da) música e empreende a sua tradução em palavras. Daí a inverosimilhança de que falam certos comentadores: a morte encena-se com imagens da vida (a luz que ilumina os amantes, o rio que Simon toma como fronteira literal do mundo do Além), a vida tem a banda sonora da morte.

Como Simon sofre uma morte aparente no início do filme, sente-se ressuscitado à maneira de Lázaro. A princípio, ele e a amante (Elizabeth) querem partir fisicamente (viajar), mas logo a euforia vital descamba em morbidez e o par acaba por antes desejar uma viagem metafísica. Todavia, o mais importante é que Simon sofreu uma espécie de Juízo Final personalizado e simbólico, uma ressurreição avant la lettre.

Então, as partículas em queda podem ser as estrelas que hão-de eventualmente cair no Fim do Tempo prometido pela Bíblia. Afinal, a um dado momento um belo travelling em contrapicado capta as estrelas do céu nocturno com a mesma dimensão e aspecto das ditas partículas. O filme serve-nos um Maravilhoso pictórico-sonoro em plena harmonia com a evolução criativa do seu tempo.

A ambição de Resnais é desmedida. O amor e a morte são nada mais que as duas dimensões da montagem. Pois a montagem tanto inventa uma ligação entre imagens, como entre elas impõe um corte fatal. A maneira como a entendemos depende, então, do raccord da nossa fé (não necessariamente religiosa).

"L'amour à mort" é uma obra-prima de esperança.

2 comentários:

rf~ disse...

a tua última frase é perfeita para descrever este filme.

pedroludgero disse...

Obrigado pelas tuas palavras.